Um filme que esteve
presente durante toda a minha vida. Fadas,
magia, fé – são essas as três coisas que estão presentes nesta linda história e, apesar de parecer infantil, é uma lição maravilhosa sobre o poder da nossa capacidade
de acreditar.
FAIRYTALE: A TRUE STORY (1997)
Dirigido por Charles Sturridge,a história se passa em
1917, e é baseada num fato real: o caso das Fadas de Cottingley. As primas
Elsie Wright, de 16 anos, e Frances Griffiths, de 10, relataram que tiveram
contato com fadas e conseguiram demonstrar este feito através de fotos. Na
época, houve grande comoção entre jornalistas e fotógrafos, todos possuídos
pela imensa curiosidade em saber se o que viam era real ou falso, e outros,
ainda, com a única intenção de desvendar o mistério acusando-as de que suas
fotos não eram verdadeiras.
(Frances e Elsie, respectivamente)
O pai de Frances está na
guerra, então ela procura sempre depositar sua fé em coisas que lhe façam bem.
Ela e sua prima, Elsie, são admiradoras de fadas e tentam, de todos os modos,
entrar em contato com elas. Elas cantam, elas recitam poemas, elas chamam as
fadas. Porém, no início, elas não obtêm sucesso; as fadas, como criaturas
frágeis que são, têm medo de se exibirem e virarem uma exposição de circo para
os olhos humanos.
A situação se reverte –
as fadas confiam nas duas garotas. Elas aparecem para elas e passam a fazer
contato. Só que, mais uma vez, o que era pra se manter em segredo é espalhado
com um sopro ao vento. As garotas ganham uma câmera nova e, com o intuito de
provar que as fadas realmente existem, conseguem fotografá-las de forma
escondida.
Quando exibem as fotos ao
pai de Elsie, ele não acredita e tem veemência quando afirma que as imagens são
forjadas e que as fadas são feitas de papel e montadas de modo a parecem reais.
Ele fica com as fotos para analisá-las (pois é fotógrafo), e tenta ocultar este
fato de sua esposa (mãe de Elsie). Ele age desse modo, pois, anos atrás,
tiveram um filho que morreu de pneumonia – um garoto fascinado por fadas e que sempre
afirmou que elas eram reais. A mãe não superou essa morte e, sempre que entrava
em contato com qualquer coisa relacionada ao filho, ficava em depressão.
Essa é uma das fotos
verdadeiras, mostrando Elsie com as fadas:
Num momento de distração,
a mãe tem contato com as fotos. Ela quer, realmente, do fundo do coração,
acreditar que o que está vendo é real, porém ainda tem suas dúvidas. Ela passa
a frequentar uma sociedade teosófica, onde o palestrante e todos os membros
afirmam que criaturas de outro mundo são reais – como fadas e fantasmas.
Pessoas relatam acontecimentos onde foi possível visualizar estes seres e,
assim, a fé que a mãe de Elsie possui aumenta, e ela também passa a acreditar
em fadas.
Mas os meios de prova
nunca são suficientes, né? Quem acredita, acredita, e ponto final. Mas essa
capacidade de fé é inferior ao que realmente deveria existir nas pessoas e, por
esse motivo, os pais de Elsie entregam as fotos a Edward Gardner, membro da
sociedade teosófica, a fim de que ele as analise. Uma das crenças centrais da teosofia é que a humanidade
está passando por um ciclo de evolução, no sentido de aumentar a
"perfeição", e Gardner reconheceu a potencial importância das fotografias
para o movimento.
Não me recordo se esta
frase dita por Edward está presente no filme, mas, em se tratando de uma
história real, eis aqui suas palavras:
“...o fato de que duas
jovens não só tinham sido capaz de ver fadas, o que outros já haviam feito,
mas, na verdade, pela primeira vez, serem capazes de materializá-las a uma
densidade suficiente para que suas imagens fossem gravadas em uma chapa
fotográfica, significou que era possível que o próximo ciclo de evolução
estivesse em curso.”
Ainda, no filme aparece
uma figura histórica: Sir Arthur Conan Doyle (famoso escritor de Sherlock
Holmes), que, na vida real, teve sua atenção voltada para as fotos das fadas.
Como espiritualista, ele interpretou as fotos como evidências de fenômenos
psíquicos. Ele fazia parte do público que também acreditava em fadas.
Muitos fotógrafos, na
época, confirmaram que as fotos eram amadoras, porém reais; que não havia nenhum
truque, como fotógrafos profissionais costumavam fazer. A possibilidade de
dupla-exposição da foto, portanto, foi excluída. Mas agora vem uma informação
triste: na edição da Science, de 1983, Elsie e Frances confessaram que as
fotografias eram falsas, feitas de papelão/cartolina e recortadas a mão, com figuras de
um livro de crianças que era popular na época.
Mas também há a parte boa:ElsieeFrancesafirmaram que, apesar de as fotografias serem falsas, elas realmente viram as fadas. E mais:Francesadmitiu que a quinta e última fotografia era realmente genuína. As fotografias e duas das câmeras utilizadas estão em exposição noNational Media Museum, em Bradford (Inglaterra).
(Quatro das cinco fotos verdadeiras - a quinta e última foto, dita por Frances ser genuína, não foi encontrada - pelo menos não por mim)
Esse vídeo mostra a
confissão das duas garotas (já velhas), afirmando que as fotos (infelizmente)
são falsas, e que não se arrependem da “brincadeira” que fizeram:
Mas e aí, vocês
acreditam? De tantas coisas que existem no mundo, essa é uma das que eu
acredito. Pode parecer infantil, burrice, estupidez, enfim, várias coisas. Mas
e se existirem mesmo? É difícil provar, mas pra quem acredita de verdade, a
prova que a fé nos traz é mais que suficiente. Por isso eu digo sem vergonha: eu acredito em
fadas!
Vale lembrar, também, que
na época a repercussão dessa história trouxe também muitos benefícios: pessoas
que eram doentes passaram acreditar em milagres, e quem antes não possuía
nenhuma fé na vida, nenhuma esperança em relação a qualquer coisa, teve sua
vida modificada por esses acontecimentos. No fim, cabe essa lição: não importa
se é real ou não – o que importa é se você acredita e se isso vai te fazer bem
ou mal!
E, pra quem quiser saber mais sobre a história das fadas de Cottingley:
Pensem
num filme que eu demorei pra digerir. Mas, depois de um tempo, gostei. =)
THE WICKER MAN (1973)
O
sargento Neil Howie, interpretado por
Edward Woodward, é um policial
cristão fervoroso e conservador. Seu amor pela Igreja e ensinamentos cristãos chegam
a ser alvo de sarro por parte dos companheiros de polícia. O sargento, então, é
reportado para investigar o desaparecimento de Rowan Morrison (Geraldine
Cowper), na estranha ilha escocesa de Summerisle.
Estranha
para Howie, claro, pois é uma ilha
pagã. E que cultua e festeja seu paganismo sem se importar com a presença do
sargento. Pra vocês terem uma noção, eles adoram um pênis, pois representa a fertilidade.
Além disso, há deuses para o sol, para a terra etc. A questão é que, assim que
o policial põe os pés na ilha, ele já sente alguma coisa “muito errada” pois,
ao perguntar por Rowan, e, inclusive,
mostrar a foto, todos os moradores se fingem de desentendidos.
Até
a professora da ilha, Miss Rose (Diane Cilento), age como se a garota
não tivesse existido. Só depois de muita pressão ela fala que Rowan morreu. E nem diz assim,
claramente, porque explica que em Summerisle
não se usa a palavra morte. Enfim, Howie pretende
exumar o corpo da menina para dar o caso por encerrado, mas, para isso, precisa
da autorização do dono da ilha, o Lord
Summerisle – interpretado por Christopher
Lee.
O
Lord completa a estranheza do lugar,
digamos. Ele tem uma personalidade tranquila, serena, que constrasta com a
agressividade de Howie (que, cá pra
nós, é só um modo de se defender de tanta coisa estranha pra ele). Ele não se
nega a deixar o policial abrir o túmulo de Rowan
e, inclusive, na visita que Howie lhe
faz, ele conta um pouco da história da ilha e fala mais sobre seus costumes.
A
questão é que – E ESSA É A ÚLTIMA COISA DO FILME QUE EU POSSO FALAR SEM DAR SPOILER – a exumação do corpo não ajuda
em nada nas investigações. O corpo da jovem não tá na tumba; no lugar, há um
coelho. Essa é gota d’água para que Howie
fique ainda mais desconfiado do povo daquela ilha, e comece uma verdadeira
caçada à Rowan Morrison.
Vale
lembrar que Howie fica hospedado na Green Man Inn (Taverna Homem Verde), cujo dono, Alder MacGreagor (Lindsay
Kemp) tem uma filha belíssima, Willow
(Britt Ekland). Inicialmente de
forma discreta, e depois, de modo mais latente, perturba o sargento, que se vê
dividido por suas crenças cristãs e a beleza daquela moça.
The Wicker Man é um filme que, pelo menos na minha opinião, não pode ser definido por uma só palavra. É perturbador, erótico, estranho. PRINCIPALMENTE ESTRANHO. Mas não o é de um modo pejorativo, não; é como se fosse uma coisa muito nova sendo mostrada. Apesar de o filme ser de 1973, e tantos outros filmes de temática parecida terem estreado, pra mim foi tudo muito novo, e “assustador”.
Pelo que andei pesquisando na interwebs, em 2006 fizeram um remake de The Wicker Man, traduzido em terras brazucas como O Sacrifício, e protagonizado pelo Nicolas Cage. Não assisti a ele, mas não vi críticas muito boas por aí. Não entrarei no mérito, mas quero deixar registrado aqui que remakes estão num campo perigoso, porque a cobrança sempre será muito maior. Enfim, há remakes bons e ruins, e cada um forma sua própria opinião.
VOLTANDO
AO ASSUNTO (foco, Stephanie, haha), falei lá em cima que demorei pra digerir The Wicker Man. E demorei mesmo. Talvez
eu só não tenha gostado muito do final, por isso fiquei na revolta. Mas a
verdade é que esse filme é uma obra de arte, do seu jeito, porque sabe expor a
cultura daquela ilha sem se tornar entediante ou pejorativo. Enfim, gostei.
Assistam. =)
Antes
de ir embora, encontrei algumas curiosidades sobre esse filme. Vamos a elas:
- Existe uma música do Iron
Maiden (uma das minhas bandas favoritas) chamada “The Wicker Man”. As últimas
duas frases da música têm relação com o final do filme;
- Na cena em que Willow (Britt Ekland)dança nua sensualmente no
quarto ao lado de Howie, parte das cenas foi feita por um dublê de corpo;
- Há um documentário, de 35
minutos, chamado “O Enigma do Homem de Palha”, que explica algumas cenas do
filme, bem como seu processo de gravação;
- Devido ao baixo orçamento
utilizado para esse filme, Christopher
Lee chegou a afirmar que aceitou "trabalhar de graça".
She was Lo, plain
Lo in the morning. Standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks.
She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she
was always… Lolita. Light of my life. Fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta…
LOLITA (1997)
Para os críticos de plantão, que
continuam a insistir em certos tópicos, estou alterando o presente
post para uma abordagem mais esclarecedora dos "fatos". Não são poucas as
pessoas que surgem com comentários a respeito de pedofilia. Sendo assim, para
que eu não passe por maluca ao sustentar meu apoio aos sentimentos de Humbert
Humbert, alguns esclarecimentos se fazem necessários. Vamos lá.
Primeiramente, em nossa legislação penal, há o
artigo 213, denominado "estupro". Em seu parágrafo primeiro, está presente o
que conhecemos popularmente como "pedofilia". Nos termos do referido artigo, é crime "constranger alguém (...) a ter conjunção carnal ou praticar (...) outro ato
libidinoso" e, em seu parágrafo primeiro, o crime é qualificado se "a vítima é
menor de 18 ou maior de 14 anos".
O presente blog faz resenha de filmes, não de
livros. Tudo bem que o filme Lolita é baseado no livro de mesmo nome, do autor
Vladimir Nabokov, mas estamos aqui para falar do filme, da adaptação
cinematográfica, e não do livro em si, ok? Isso significa que, por mais
fiel que o filme seja à obra literária, sempre existirão algumas divergências.
Então, o que tiver em comum com o livro, eu citarei; caso contrário, não.
Então, para quem não sabe, a Lolita do nosso filme
possui 14 anos. Mesmo assim, de acordo com o parágrafo primeiro do artigo acima
citado, ela se enquadraria como vítima de estupro, correto? Correto.
Quem viu o filme (e isso acontece tanto no livro
quanto no filme), sabe que o sedutor na história, no caso, a sedutora, foi
Dolores Haze. Foi ela quem deu os primeiros passos. Humbert, até então, era só
um observador. Lolita sempre foi maléfica, pois isso era parte de sua
natureza de ninfeta (uma natureza demoníaca). Ela nunca demonstrou amor por Humbert, somente
indiferença. Quanto mais desprezo ela demonstrava, maior era sua satisfação.
De acordo com o nosso Código Penal, a pessoa maior
de 14 anos tem discernimento suficiente para exercer a sua liberdade sexual. Já
podemos, aqui, excluir a incidência do crime “estupro de vulnerável”, pois
Lolita tinha mais de 14 anos. Mas, mesmo assim, o estupro qualificado do
parágrafo primeiro ainda se aplicaria a ela. Entretanto, existe entendimento
jurisprudencial que relativiza o crime nesses casos, quando a suposta vítima,
na verdade, não era exatamente uma vítima (ou seja, consentiu com a prática dos
atos sexuais e tinha plena consciência do que fazia). Neste sentido, vide Habeas
Corpus nº 73.662/1996.
Só mais alguns questionamentos: como vocês podem
dizer que Lolita não tinha consciência plena de seus atos (com seus 14 anos)
se, quando ela foge de Humbert, ela vai direto para Quilty, um homem com a
mesma idade (ou até mais velho) que seu padrasto e, ainda, que fazia de sua
casa um prostíbulo infantil? Como vocês podem dizer que Lolita não
tinha consciência plena de seus atos se, mesmo antes de ficar com Humbert, já havia tido relações com um garoto no acampamento (Charlie), por repetidas
vezes?
"Por que
então este horror de que não consigo me livrar? Tê-la-ei privado de sua flor?
Sensíveis senhoras do júri, sequer fui o seu primeiro amante."
Enfim, eu li e assisti Lolita diversas vezes. E
digo sem medo que Dolores fez o que fez porque quis, e não porque foi obrigada.
Por outro lado, concordo que, em certas passagens
(mas isso somente após a entrega total e consentida de Lolita, e no livro isso
é muito mais evidente do que no filme), Humbert a ameaçou algumas vezes para
conseguir o que queria. Infelizmente, Lolita não tinha outra opção a não ser
conviver com ele, e com certeza ele se aproveitou dessa situação. E, por essas
vezes, com certeza ele merecia ser punido. Em resumo, eu também acho que
Humbert teve culpa na história. Entenderam? Todos têm culpa, até o destino, que
fez com que Dolores não tivesse mais para onde ir, a não ser permanecer com seu
padrasto.
Digo isso, pois, no livro, ele mesmo pede para
ser condenado, pois o que ele mais sentia falta era a voz de Lolita junto ao
coro das vozes das crianças, e não ela em seus braços. Sim, ele se arrependeu
das relações que teve com ela, mas eu nunca duvidei do amor que ele sentiu. Na
verdade, ambos são culpados pela estranha relação que tiveram. E, com certeza,
ele pode ser considerado um louco, doente e pedófilo, talvez, por ter feito o
que fez, mas repito: não há dúvidas de que Humbert sempre amou e sempre amará
Dolores Haze. Era um amor doentio e obsessivo, mas, ainda assim, amor.
Caberá a nós, "senhoras e senhores do júri",
julgarmos Humbert por todos os crimes que ele supostamente cometeu. Em minha
opinião, seu maior crime continua sendo "amar demais".
Segue trecho do livro que representa a cena final
do filme:
"O que eu
ouvia era apenas a melodia de crianças brincando, nada mais, e tão límpido era
o ar que em meio ao vapor daquelas vozes combinadas, majestosas e mínimas,
remotas e magicamente próximas, reveladoras e divinamente enigmáticas - podia-se
ouvir de tempos em tempos, como que desprendido, um jorro quase articulado de
riso animado (...) Fiquei ouvindo aquela vibração musical da minha encosta
distante, esses relances de exclamações isoladas com uma espécie de murmúrio
contido a lhes servir de fundo, e então percebi que a coisa desesperadamente
dolorosa não era Lolita ausente do meu lado, mas a voz dela ausente de toda
aquela harmonia."
Para concluir, quero deixar bem claro que não
sou a favor desse crime horrendo. Cada um tem o direito de interpretar o
romance da melhor maneira que lhe convém. Cada um tem o livre-arbítrio para
enxergar a beleza até nas situações mais impossíveis e improváveis. E se você é
contra tudo isso que eu escrevi, ótimo. Porque todos têm sua liberdade de
expressão garantida no artigo 5º, inciso IX, da Constituição da República
Brasileira. Ainda bem. Como já dizia Kant: "A verdade ou a
falsidade de afirmações e teorias devem ser julgadas pelo pensamento próprio de
cada um".
Dessa forma, podemos ir à resenha do filme em si. Esse filme, como o anterior sobre o qual comentei (Túmulo dos Vagalumes), também começa pelo final; não exatamente a cena final, mas um final considerável no qual conseguimos ter uma noção sobre a amplitude dos sentimentos do professor Humbert. Após isso, o filme volta a ter uma ordem cronológica lógica, que nos permite descobrir, em uma linda cena, o encontro entre Dolores e o professor.
O professor Humbert precisa de um local para se hospedar
e, neste contexto, surge a Senhora Haze, mãe de Dolores,
oferecendo-lhe sua casa. Claramente podemos ver que, desde o início, seu
interesse no professor, tanto que insiste para que ele se hospede em sua casa
por um valor bem pequeno. Charlotte Haze é uma mulher bonita e
bem arrumada, diferente da versão do filme de Kubrick. Portanto, poderíamos
pensar que não existiriam motivos para que, talvez, algum dia, o professor não
se apaixonasse por ela; mas, alguns minutos depois, o filme nos mostra o motivo
de toda a paixão e desgraça das coisas que ocorreriam na vida de Humbert: Dolores Haze -
nossa ninfeta Lolita. Eu, particularmente, acho essa cena muito bonita. A expressão facial e a
emoção que o professor Humbert demonstra é algo muito real – parece
até que o Jeremy Irons não estava interpretando (vai saber,
né?). Podemos ver claramente a paixão, até mesmo amor, naqueles olhos que,
brilhando, vão de encontro aos olhos de Lolita. É tão lindo que até
mesmo nós, meros espectadores, conseguimos sentir a profundidade daquele
sentimento.
Em seguida, o filme revela a origem dessa paixão devastadora por Lolita,
que ocorreu durante a adolescência de Humbert.
Quando ele tinha 14 anos, ele teve seu primeiro amor. Porém, certos infortúnios aconteceram, fazendo com que uma ferida se abrisse em seu coração e nunca
fosse fechada, curada, até o presente momento. O momento em que ele encontraDolores, também com 14 anos. Espero que vocês saibam que ter 14 anos não é motivo para ser puro,
ingênuo, infantil e todas as outras características típicas de uma criança.
Essa não é nossa realidade atual. E até em épocas mais remotas isso não ocorria
de tal maneira. Nem todas pessoas são iguais. Existem meninas que, mesmo com
pouca idade, já se mostram sexualmente desenvolvidas e com interesses que vão
além de assuntos infantis. E é esse o foco que podemos encaixar em nossa Lolita:
ela, desde o início, percebendo que Humbert era loucamente
apaixonado por ela, provoca-o com olhares, toques, enfim, todas as armas de
sedução que uma mulher possui (diferente do filme do Kubrick, que, como foi
feito em uma época diferente, precisou ser censurado).
Como expliquei
anteriormente, existem pessoas que afirmam veementemente que Humbert é
louco, doente e pedófilo (e eu concordo parcialmente em alguns pontos), mas,
quando assistimos ao filme ou lemos o livro, o foco muda aos poucos: não há
como ser completamente a favor de Dolores ou de Humbert. Não podemos dizer que houve apenas culpa
por parte de Lolita ou de Humbert,
pois isso seria uma inverdade – a mãe de Dolores, por sempre contrariá-la e
nunca lhe dar uma educação e carinho suficientes, e também o próprio Humbert,
por saber ser errado se relacionar amorosamente com sua enteada, possuem suas
parcelas de culpa.
"Eu te amava. Não passava de um monstro pentápode, mas te amava. Fui desprezível e brutal, e torpe, e tudo o mais, mas je t'aimais, je t'aimais! E houve momentos em que eu sabia como te sentias, e a consciência disso era um inferno, minha pequena."
Mesmo assim, nada me faz
deixar de pensar que a parcela maior de culpa é de Lolita. É claro
que, devido a certos acontecimentos durante a história, ela se torna uma garota
sozinha, tendo apenas ao professor para se socorrer. Mas as atitudes
desprezíveis que ela toma em relação a Humbert, além de toda a
indiferença demonstrada, é algo que machuca até o coração de quem antes torcia
contra ele - ela o manipula e o trata como se fosse um animal indesejado. Não é
à toa que muitas vezes ele se irritava com ela; antes mesmo de existir uma
relação entre os dois, Dolores já era uma adolescente com
pouca educação, desrespeitosa, teimosa e que agia o tempo todo com
concupiscência.
E Humbert literalmente
se entrega aos braços de Lo. Ele acata a todos os seus pedidos e,
quando erra em relação a qualquer coisa, corre atrás dela com tantas desculpas
que você até se cansa de ouvir "I'm sorry". Ele se torna um capacho.
Ele vive por ela. O ar que ele respira existe apenas devido à existência
de Lo. E ao mesmo tempo em que ele a trata como uma amante, também
desempenha o papel de pai. Por mais errado e estranho que fosse esse
relacionamento, ele sempre prezou pelos cuidados de Lolita.
"Apesar de nossos arrufos, apesar da maldade que ela exercia, apesar de todo o esperneio e de todas as caretas que me dirigia, da vulgaridade, do perigo e da horrível desesperança de tudo, eu ainda flutuava nas profundezas do meu paraíso de eleição - um paraíso cujos céus tinham a cor das chamas do inferno -, mas ainda assim um paraíso."
Eu gosto tanto assim desse filme exatamente pelo
sentimento de esperança que percorre nossa alma - no começo, mesmo você sabendo
e sentindo que essa Lolita vai destruir a vida de Humbert,
você ainda acredita que o destino terá um papel fundamental na mudança dos
acontecimentos, e que as coisas irão melhorar. Entretanto, as atitudes de Lolita se mostram tão ofensivas para com
o homem que a ama, que você começa a mudar, aos poucos, de opinião. Pelo menos
é essa a visão que eu tenho do filme (e também do livro). Para mim, Lo recebeu
um amor muito maior do que realmente merecia. Ela faz tudo o que quer com o
coração de Humbert, no
pior sentido possível. A ferida que ele cita no começo do filme, que permaneceu
aberta desde quando amou Anabelle (seu primeiro amor, aos 14 anos), com
certeza se transformou em algo maior e sem cura depois que Lo entrou
em sua vida. E, mesmo com todos os apesares, mesmo admitindo
que foi tratado como um ninguém e que todos os horrores que aconteceram em sua
vida dependeram da existência dessa garota, Humbert
reconhece que a ama, sempre amou e sempre amará. Apesar do desprezo de Lo,
apesar de ela lhe dizer que preferia viver com Quilty, Humbert ainda se humilha e insiste que
ela volte para seus braços.
"'Uma
última coisa', disse eu em meu inglês horrivelmente cuidadoso, ‘tem mesmo
certeza total de que - bem, não amanhã, é claro, nem depois de amanhã, mas -
bem - um dia, qualquer dia, você não quer vir viver comigo? Crio um Deus novo em
folha, a quem agradecerei com uivos lancinantes, caso você me dê a mais
microscópica esperança.'"
Em minha percepção, Jeremy Ironspermanecerá permanentemente no papel de Humbert
Humbert. Sobre sua atuação, me faltam adjetivos. Mas, posso simplificar com
um "sensacional". Possuo a mesma opinião em relação à atuação de Dominique Swain, como Lolita. Intensidade foi o que não faltou no resultado final.
Ainda, mostro aqui mais razões por eu preferir a versão de 1997. Vamos, então, aos atores que interpretaram o professorHumbert: na versão do diretor Kubrick, quem desempenha este papel é James Mason e, na versão do diretor Adrian Lyne, tenho orgulho de anunciar que, como todos já sabem, o merecido papel foi para Jeremy Irons.
Jeremy Irons foi uma escolha
corretíssima para esse papel... Já na versão do Kubrick, não tenho muito o que comentar. James
Mason é um notório e ótimo ator, entretanto, no quesito beleza, deixa
a desejar, como é possível visualizar na imagem abaixo. Acredito que todos
concordam comigo neste quesito (e, se não concordam, por favor, procurem um
oftalmologista).
E, para quem tiver curiosidade sobre a aparência das duas Lolitas, a
imagem abaixo também vai esclarecer essa dúvida. Particularmente, ainda prefiro
aDominique Swain(1997 - imagem à sua direita),
mesmo aSue Lyon (1962
- imagem à sua esquerda) parecendo ser mais bela. Acredito que Dominique, à época da gravação do filme, possuía as
características necessárias para desempenhar a personalidade da Lolita descrita
no livro de Nabokov.
Aliás, a Dominique desempenhou um
papel tão sensacional e se entregou tão profundamente à sua personagem que, em um
dos ensaios para o filme, ela simplesmente chorou, sem ajuda de qualquer
artifício (e, salvo engano, aquela cena não necessitava de tanta profundidade,
e nem estava no roteiro que ela deveria chorar). Vocês podem conferir no vídeo
abaixo:
Dou meus parabéns para Adrian Lyne por esse filme excepcional. Quem leu o livro vai entender exatamente o motivo - ele se manteve fiel o tempo todo; foi uma reprodução sincera e maravilhosa do livro Lolita, de Vladimir Nabokov.
"Mas quem poderia querer dificultar a existência daquela luminosa e adorada criatura? Já mencionei que seu braço nu apresentava o 8 das vacinações? Que eu a amava perdidamente? Que ela tinha só catorze anos?"
Mais algumas curiosidades: esse filme teve
outras oito cenas gravadas que, infelizmente, foram deletadas. Depois que li o
livro, achei que pelo menos duas delas deveriam ter permanecido no filme (cenas
nº 02 e nº 08), de tão fiéis e sensacionais que ficaram em relação ao
livro. Enfim, AdrianLyne fez o que acreditou ser
o melhor para o filme, mas ainda podemos ter o prazer de poder visualizar essas
oito cenas, que estão disponíveis no YouTube e aqui no blog,
nos links abaixo:
"E eu não conseguia parar de olhar para ela, e soube tão claramente como sei agora, que estou prestes a morrer, que a amava mais que tudo que já vi ou imaginei na Terra, ou esperei descobrir em qualquer outro lugar."