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sábado, 17 de agosto de 2013

Elena

      Pouco a pouco as dores viram água, viram memória. As memórias vão com o tempo, se desfazem. Mas algumas não encontram conforto, só algum alívio nas pequenas brechas da poesia. Você é a minha memória inconsolável, feita de pedra e de sombra. E é dela que tudo nasce. E dança.

ELENA (2012)


      Nunca pensei que consideraria um filme brasileiro como meu favorito. Sim, tenho aquele preconceito ridículo que a maioria das pessoas tem, e constantemente filmes brasileiros me decepcionam. Mas com Elena foi diferente. Como disse Jorge Furtado, ''Petra inventou uma nova forma de filmar, filmou a alma''. E foi exatamente com a alma que eu assisti a esse filme. Hoje é sábado. Assisti Elena quinta-feira, sexta-feira e hoje, e a vontade de assistir novamente ainda não sumiu de mim.

      Um dos fatores que tanto influenciou meus sentimentos foi o fato de que a história se passa entre duas irmãs, uma mais velha e uma mais nova (e eu não pude deixar de me colocar no lugar delas, visto que a diferença de idade entre minha irmã e eu é praticamente a mesma). Elena é poesia, é alma, é amor. É uma história sobre consolação, sobre aprender a viver sem ter aquilo o que você mais deseja: a presença de alguém.


     O filme é um documentário biográfico. Petra Costa, diretora, conta a história de sua irmã, Elena Andrade, e como foi sua vida a partir de seu distanciamento. Petra volta à Nova York na intenção de encontrar Elena caminhando pelas ruas com sua blusa de seda. Leva com ela apenas lembranças que a irmã deixou no Brasil: filmes, recortes de jornais, diários e cartas. Petra precisa encontrar Elena para tentar continuar a viver. Se ela deixar Elena continuar vivendo em sua memória, e principalmente em sua alma, ela não conseguirá seguir em frente.

"Será que a minha raiz vai conseguir arrebentar asfaltos, canos e prédios pra sobreviver e gerar frutos? Sim, se minha raiz fosse forte, grande, mas sinto que a minha semente nem chegou a brotar direito ainda. Então, provavelmente em uma cidade, ela se brotasse, miúda e doente viveria."

      Elena nasceu na época da ditadura militar e viveu na clandestinidade. Seus pais, com desejo de revolução, queriam ir à guerra. Petra deixa claro o que salvou a vida deles: Elena, o bebê de seis meses na barriga da mãe. Desde os 4 anos de idade ela teve convicção de que queria ser atriz, como sua progenitora. Alguns anos depois, nasce Petra, com quem Elena passa os dias brincando de teatro e ensinando a atuar.



      Quando Petra faz 7 anos, sua irmã a leva até o quarto e lhe diz que ficariam separadas por algum tempo, pois ela iria morar longe. Elena está deixando de brincar de teatro para virar atriz. E Petra confirma: 7 anos foi realmente sua pior idade. Essa foi a primeira vez que Elena se distanciou da família.

      Elena, em Nova York, faz várias entrevistas, mas ninguém liga de volta. Ela começa a ficar deprimida, se acha feia e gorda, e sem esperanças de que algum dia sua raiz possa se tornar forte o suficiente para se fixar em algum lugar. Por tais problemas, ela volta ao Brasil, na esperança de poder se reencontrar. Porém, após um curto período de tempo, ela retorna à Nova York para começar suas aulas na Universidade, dessa vez levando consigo mãe e irmã.



      Petra odeia Nova York. Odeia o frio e o fato de ter que aprender inglês. Mesmo com a presença da família, Elena continua deprimida, chorando, gritando, apenas desejando dar um fim em sua vida. Ela deixa claro que, se ela não consegue viver com a arte, ela prefere morrer. A depressão fica evidente aos olhos da família, e isso influencia os sentimentos de Petra.

"Esse corpo tá doente. A vida o fez totalmente doente. Totalmente. Aquele eu descontrolado voltou e eu ajo como se atuasse, percebo tudo como numa tela de cinema: o meu tempo, respiração, os olhos ficando diferentes. O mundo tá vazio, deserto, não adianta esperar por ninguém. Você tá só, completamente só."

      A partir daqui, é impossível uma resenha sem spoilers. Mas vale a pena ler e assistir ao filme mesmo já sabendo a história.

      Elena critica a si mesma o tempo todo. Como eu disse, para ela, a vida sem arte não é vida, e dessa maneira ela prefere desaparecer do mundo, dormir para sempre, entrar na escuridão. Então, o inevitável acontece: Elena escreve uma carta e engole um frasco de aspirinas... com cachaça. Elena morre, deixando no mundo uma mãe feita de saudades, um pai que apenas olha para longe quando perguntam sobre ela, pois lhe faltam as palavras, e uma irmã que sofre sem a sua presença. “It hurts my feelings” foi a primeira frase que Petra disse quando viu a mãe triste e perguntou se sua babá havia morrido. Quando recebeu a resposta de que quem havia partido era sua irmã, ela achou o mundo um lugar completamente cruel.



     Petra, a partir daí, também foi diagnosticada com depressão. Tinha sentimentos de culpa e evitava falar de sua irmã. Um dia, quando tinha 10 anos, ela finalmente percebeu que Elena havia morrido pra sempre. “E ela, não volta mais?”. “Não. Ela tá morta".

"Uma tarde, dando voltas em círculos, eu percebo que você morreu. Pra sempre. Volto pra dentro da casa e percebo que minha mãe pode morrer. E penso que se pensei isso, quer dizer que ela vai mesmo morrer a qualquer momento. Que é um sinal. E que eu devo fazer tudo pra evitar. Começo a fazer promessas constantes: que eu não vou comer mais sal, que eu vou subir todas as escadas do nosso apartamento no décimo nono andar de joelhos e que nunca mais vou me olhar no espelho, pra ela não morrer. Sempre entrava no banheiro de olhos fechados."

      O tempo vai passando e as memórias vão sumindo, e Elena vai desaparecendo junto com elas. Petra cresce, e chega à época do vestibular. Agora, você já está mais velha do que Elena”. De última hora, ela decide fazer teatro, como a irmã. A partir daí, foi como se Elena voltasse. Não só na memória, mas dessa vez dentro da alma de Petra. Ela sente a irmã dentro de si, e mais, como sendo seu próprio ser. As duas irmãs vão se (con)fundindo em um só corpo, e Petra passa a se sentir da mesma forma como Elena se sentia nas semanas antes de morrer: deprimida, cansada e apenas desejando colocar fim nos momentos de infelicidade que ela estava vivendo.


      Se ela me convence que a vida não vale a pena, eu tenho que morrer com ela”. E para não pôr fim à própria vida, Petra precisa encenar sua própria morte, a morte dela e a de Elena, para que possa viver sem aquela sensação de que está se transformando na irmã. Dessa vez, Petra tem consciência da morte da irmã – um sentimento que veio com prazer e imensa dor. Elena passa a se materializar e sair do corpo de Petra na medida em que esta a busca nas ruas de Nova York, na medida em que encontra seus vídeos, cartas e lembranças.

"Eu quero morrer. Razão? Tantas que seria ridículo mencioná-las. Eu desisto, desisto porque meu coração tá tão triste que eu sinto achar-me no direito de não perambular por aí com esse corpo que ocupa espaço e esmaga mais o que eu tenho de tão, tão frágil."

      Desta forma, Petra supera a morte de Elena para continuar vivendo. Dessa vez, ela entende que Elena se foi para sempre, e que agora é apenas uma memória. Uma memória inconsolável, feita de pedra e de sombra. Mesmo sendo uma memória sem consolo, Petra aprendeu a se conformar para continuar com seu papel em seu próprio filme.

      Assim como, quando criança, ela entendeu que a pequena sereia precisou morrer para que um dia fosse o que queria ser, agora ela entende os motivos que fizeram Elena partir.

Resenha por: Rebeca Reale

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O Dublê do Diabo

      O filme sobre o qual vou falar agora eu vi num site de downloads, enquanto matava tempo e procurava algo pra assistir. Depois de ler a resenha, me interessei muito, e olha... super recomendo.

THE DEVIL'S DOUBLE (2011)


         
      O filme conta a história real de Latif Yahia (vivido por Dominic Cooper), que, desde adolescente, apresentava uma grande semelhança a Uday Hussein (também vivido pelo Dominic), filho mais velho de Saddam Hussein. Por isso, ele foi “gentilmente” escolhido para ser dublê de Uday, ou seja, aparecer em locais públicos e fazer coisas que o outro não queria fazer. Ser alvo de atentados, principalmente. Pelo que Latif conta, sobreviveu a 11 tentativas de assassinato. Aliás, é claro que vocês já devem saber o porquê das aspas ali no gentilmente.

(Uday, à esquerda, de terno; Latif,à direita)
                
      Latif, sinceramente, não queria ser dublê. Afinal, teria que se passar por morto para a família, fazer intervenções cirúrgicas para mudar a aparência e, principalmente, agir como Uday, ou seja, ser um babaca. Uday é mimado, sádico, psicótico. Há cenas do filme em que você se enoja dele, juro. O Latif não tem muito o que fazer a não ser obedecer o que o maluco lhe manda, sob pena de ter toda a família assassinada. E ele sabe que Uday é bem capaz disso.


                
      O problema – se é que isso tudo já não é um problema – aparece quando Latif se apaixona por uma das mulheres de Uday, a propósito, a preferida dele, Sarrab. Ela acaba se interessando por ele também, e parte do filme gira em torno dessa relação. A outra parte do filme fica com os absurdos de Uday, que incluem (e isso não é spoiler, só um exemplo), mostrar um vídeo de torturas com prisioneiros só pelo prazer de ver o sofrimento deles.

          Ainda bem que vi as críticas do filme após assisti-lo. Dando um passeio pela interwebs, vi que não falaram muito bem do O Dublê do Diabo, não. Eu, pelo menos, amei o filme, mas entendo quem não gostou por algumas razões: querendo ou não, o filme é feito sob a perspectiva do Latif, que acaba se passando por “mocinho”. Além disso, há quem critique a atuação do Dominic, o que eu acho um absurdo. Pode ser que como Latif ele tenha deixado um pouco a desejar, mas a maestria com que desempenhou o papel do psicopata Uday é louvável. Não é um papel simples; e ele soube atuar, na minha opinião.

(Um dos atentados sofridos por Latif)
                
      Há umas sacadas muito boas no filme, nada preconceituosas, apesar desse tipo de filme (ainda que biográfico) estar naquele limbo perigoso de filmes sobre o Oriente Médio. Um dos detalhes que, particularmente, me deixou boquiaberta foi a quantidade de dublês do Saddam Hussein na história; às vezes, você simplesmente não sabe quem é ele, SE é ele.
                

      Outra coisa interessante – e certamente verídica – é a “gentileza” usada pelo Uday pra conseguir as coisas. É porrada, é sangue, é morte, se for preciso – desde que ele consiga o que precisa. Como eu disse, você se enoja dele, e é exatamente por causa dessa necessidade que ele tem de se mostrar superior, de mostrar que o poder do pai dele (do qual ele se aproveita) é capaz de qualquer coisa.

    
      Enfim, é um bom filme. Bem produzido, bons atores, boas atuações, trama interessante. Não há tédio; sempre está acontecendo alguma coisa. Outro detalhe legal é o fato de você nunca confundir o Latif com o Uday. Enfim, espero que gostem. Até a próxima.


Resenha por: Stephanie Eschiapati

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O Homem Elefante

      Olá, terráqueos. Stephanie aqui, de novo. Não quero deixar ninguém na bad, mas, esse filme, além de ser um dos meus preferidos, é um dos que eu mais chorei na vida. Trata-se do Homem Elefante (The Elephant Man), um belíssimo drama dirigido por David Lynch. E, pra complementar, baseado na história real de John Merrick.

THE ELEPHANT MAN (1980)



      Descobri esse filme mais do que por acaso, matando tempo no Facebook. Uma das páginas de cinema que eu curti postou essa sugestão que, normalmente, eu ignoraria, como fazia com as outras. Mas o nome e o pôster me interessaram tanto que corri pra baixar. Assisti no mesmo dia, se não me engano. E não me arrependi nem um pouco.

      O filme é de 1980, mas se passa na Inglaterra Vitoriana, ou seja, entre 1830 e 1900, mais ou menos. John Merrick, o protagonista (vivido por John Hurt), é um homem portador de uma doença rara e gravíssima chamada neurofibromatose múltipla, que causa deformações no corpo. Pra vocês terem uma noção, 90% do corpo dele é deformado. Pensem nisso, na época: ele era uma aberração, que fazia “sucesso” em freak shows, aqueles “circos de gente” que todo mundo já viu ou ouviu falar.

(O "Homem-Elefante", alcunha maldosa pela qual John Merrick era conhecido)

    Ele era MUITO maltratado, gente. Até um animal recebia melhor tratamento. Em decorrência disso tudo, ele não falava, o que fazia as pessoas o considerarem um débil mental. Certo dia, o Dr. Frederick Treves (papel brilhantemente desempenhado por Anthony Hopkins) “descobre” o John, se interessa pelo caso e o abriga no hospital em que trabalha.

(Lugar onde John Merrick vivia)

(O antigo "cuidador" de John, à direita)

(John chegando no hospital. À direita, de preto, Dr. Treves)
        
      Ainda que o Dr. Treves tivesse uma posição respeitável no hospital, não foi fácil manter o John lá dentro. E é a partir dessa dificuldade que a história vai se desenvolvendo. Ao contrário do que todos pensavam, Merrick não é um débil mental; pelo contrário. Ele tem uma sensibilidade que poucos têm, sabe ler (e não lê qualquer jornaleco de quinta, não), escrever e, ainda que tenha dificuldade ao falar, consegue alcançar uma eloquência que causa inveja.

     Podem me chamar de sentimental, mas até essas “surpresas” no meio do filme me deixaram com os olhos rasos de lágrimas. Não vou contar mais sobre a história, mesmo porque ela não corre assim, feliz e contente, o tempo todo. E é isso que faz com que o filme ganhe uma beleza sensacional, dotada de uma sensibilidade invejável.

      Assim como, em certos filmes de terror e suspense, seu corpo se arrepia de medo, em The Elephant Man seu corpo se arrepia de alegria e de ódio (frente aos maus tratos do antigo cuidador do John). Dói ver tamanha crueldade. Dói pensar que isso realmente acontecia – e acontece, podem pesquisar – e no quanto as pessoas são ridículas por destratar alguém só por alguma diferença física. O John valia mais que todas aquelas pessoas que o assistiam, essa é a verdade. Mas ninguém, a não ser o Dr. Treves, quis procurar o verdadeiro valor do John, aquele caráter magnífico que ficava lá dentro, só porque a “capa daquele livro” não era algo tradicional.


      A atuação do Anthony Hopkins e do John Hurt dá um show. Você sente as dores e as alegrias dos personagens na sua própria pele, e isso é lindo. Pra mim, poucos filmes tiveram tanta relevância sentimental, digamos. The Elephant Man dá uma lição de vida. É pra chocar mesmo, é pra esfregar na cara de quem assiste a crueldade do mundo. E, SIM, é pra chorar – pelo menos eu chorei – em várias partes. Até a próxima.



Resenha por: Stephanie Eschiapati