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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Suave é a Noite

      Claro que todas as resenhas que eu faço são pra vocês, leitores do blog. Mas essa é especial <3

TENDER IS THE NIGHT (1962) 



      O filme começa com um casal e dois rapazes na praia na Riviera Francesa, planejando uma festa em comemoração ao 04 de julho. Tratam-se de Nicole (Jennifer Jones), casada com o médico Dick (Jason Robards); Abe North (Tom Ewell) e Tommy (Cesare Danova). Para a festa, eles convidam dois casais que também estavam na praia, e uma bonita atriz, Rosemary Hoyt (Jill St. John).

(Da esquerda para a direita: Abe, Tommy, Dick e Nicole)

(Rosemary Hoyt)      

      Na festa, tudo corria bem, até que Nicole tem um acesso de ciúme ao ver Dick indo ao jardim com Rosemary (que se insinua bastante para o anfitrião – até irrita, sério). No dia seguinte, o médico, em seu escritório, começa a se lembrar do passado, e, consequentemente, de como conheceu sua esposa e amor de sua vida.


      Nicole tinha sérios problemas psicológicos por causa de seu pai. Em decorrência deles, sua irmã, Baby Warren (Joan Fontaine), torna-se sua tutora legal e a interna em várias clínicas psiquiátricas. Mas a única em que houve significativos progressos foi a do Dr. Dohmler (Paul Lukas), em Zurique, na Suíça, na qual Dick era responsável direto pelo tratamento.


      Era perceptível que havia um romance entre médico e paciente, por mais que o doutor quisesse evitar a situação. É emblemática, então, a conversa entre Dick e o Dr. Dohmler, em que o primeiro confessa estar apaixonado por Nicole. O experiente psiquiatra apresenta sua teoria: por mais que houvesse amor entre o casal, sua história era fadada ao fracasso, pois Nicole via Dick não apenas como um homem, mas como um deus ou qualquer outro ente divino. Um dia, porém, ela perceberia que seu marido não era tudo isso, e se decepcionaria, provavelmente, a ponto de se separar.


      Dick dá alta à Nicole, e não lhe dá esperanças de um romance. Tempos depois, eles se encontram casualmente, ela o convida para um jantar e o amor floresce; a cena seguinte é o casamento deles. Bom ressaltar que Dick deixa bem claro seu desinteresse pela fortuna da esposa.  Eles vivem tranquilos por um tempo, e ele, inclusive, deixa sua carreira de lado na Suíça para continuar na Riviera Francesa.

      O flashback acaba bem após uma festa de ano novo, em que Nicole se nega veementemente a voltar para a Suíça. Ela acorda (trata-se do dia seguinte à festa comemorativa da Independência americana, aquela do início do filme) e diz que quer atravessar a baía de barco, mas Dick se nega, e convence a mulher de que precisa voltar a trabalhar, precisa “salvar os dois”. Eles vão, então, para Zurique.



      A ideia do médico é se unir a um antigo amigo, Dr. Franz (Sanford Meisner) para assumir a clínica do Dr. Dohmler, já velho e doente. Eles começam o negócio, mas as coisas não funcionam muito pra Dick. A partir daí, segue-se uma série de acontecimentos que vão colocando em risco não só a carreira do psiquiatra, mas também seu casamento, visto que, desde o fim do tratamento de Nicole, ele abandonou a carreira e passou a se tornar extremamente dependente da esposa, tanto emocional quanto financeiramente.

      Deixo aqui pra vocês, então, a curiosidade em saber se a teoria do Dr. Dohmler se concretizou ou não. E o que mais aconteceu ao casal.

      Tender is the Night é uma grande história de amor, embebida por uma sensacional trilha sonora (cujo carro-chefe, digamos, é uma música de mesmo nome, composta por Sammy Fain e Paul Francis Webster). Trata não só da relação entre o casal protagonista, mas de questões relacionadas à personalidade de cada um dos envolvidos na história. Todos têm uma característica específica; Dick e Nicole, inclusive, apresentam uma evolução – ou involução? – incrível no decorrer da trama. 

      Sei que pode parecer absurdo, mas fiz uma comparação entre esse filme e Casablanca. Ainda que 20 anos separem uma obra da outra (o primeiro é de 1962 e o segundo, de 1942), há uma série de aspectos que se aproximam, desde a belíssima trilha sonora até a abordagem de um romance, que não se sabe se pode ou não dar certo.

      Rick e Dick assemelham-se, pelo menos pra mim, não apenas no nome. São homens fortes, mas com um ponto fraco: o amor. Nenhum dos dois é decididamente um bom moço; assim como Nicole e Ilsa também podem não ser as mocinhas perfeitas. Sei que tudo isso pode parecer um impropério para os cinéfilos, mas comparei, e pronto.

      São dois filmes decididamente maravilhosos, obras de arte, sem dúvida. Tender is the Night foi uma recomendação muito especial, e deveria ser mais reconhecido (apenas 20 pessoas o viram e marcaram no Filmow, por exemplo). Enfim, ainda que tenha dado um bocado de trabalho para encontrar, valeu o esforço. Super recomendo, até a próxima.


      Link para download: o filme completo pode ser encontrado no Youtube, mas sem legenda.

Resenha por: Stephanie Eschiapati

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O Homem que Não Estava Lá

      "Sim, eu trabalhava em uma barbearia. Mas nunca me considerei um barbeiro.

THE MAN WHO WASN'T THERE (2001)



      The Man Who Wasn’t  There se passa na década de 1940 e trata da pacata e monótona vida de Ed Crane (Billy Bob Thornton), um barbeiro que trabalha no salão de seu cunhado, Frank (Michael Badalucco). Ed é casado com Doris (Frances McDormand), que, logo à primeira vista, já se mostra completamente diferente dele. Ela trabalha como contadora na loja Nirdlingers, cujo proprietário, Big Dave Brewster (James Gandolfini), é um excêntrico e convencido homem, casado, assim como Ed, com uma esposa completamente diferente de si, Ann (Katherine Borowitz).

(Ed Crane)

(Doris)

(Big Dave Brewster)

(Ann, a assustada esposa de Dave)

      Não só os espectadores percebem logo de cara, mas Ed também sabe que sua esposa e o patrão dela têm um caso. Isso é tão visível que chega a irritar. Mas Ed, no fundo, não se importa; talvez porque não a ame, talvez porque já se conformou que aquele casamento é uma farsa, enfim, tirem suas conclusões. A questão é que, ao contrário do que muita gente faria, Ed não pensa em vingança nem nada parecido por certo tempo.


      Um dia, entretanto, quase no fim do expediente da barbearia, aparece um sujeito falante, que se dizia um grande negociante de passagem pela cidade, Creighton Tolliver (Jon Polito). Segundo o cara, seu negócio era “a maior oportunidade de negócio desde Henry Ford”: lavagem a seco. Ele precisava, porém, de um sócio comanditário (pra quem não sabe, esse tipo de sociedade – a comandita, que hoje não existe mais – demanda um sócio comanditário, que entra com o capital, e um ou mais sócios comanditados, responsáveis pela mão de obra) que apresentasse a razoável quantia de 10 mil dólares pra dar vazão ao negócio. 


      É claro que Ed não dá a menor importância para o falastrão, mas, depois de um tempo, passa a considerar a hipótese de se unir a ele para a tal sociedade. E tem até uma ideia de como conseguir o dinheiro: chantageando Big Dave. Ele, então, manda uma carta anônima ao patrão da esposa, dizendo saber do caso de Dave e Doris, e exigindo 10 mil dólares pra não espalhar a história.

(Tradução: Eu sei sobre você e Doris Crane. Colabore ou Ed Crane saberá. Sua esposa saberá. Todos saberão. Junte 10 mil dólares e aguarde instruções.)

      O mais engraçado é que Dave, no dia de uma festa da Nirdlingers, chama Ed de canto pra conversar e fala exatamente sobre isso. Claro que não cita nomes, mas fica claro que o caso com a “mulher casada” é com Doris. Ele diz que tem medo do que pode acontecer se não pagar o chantagista – e deem um close na “poker face” de Ed enquanto ouve a história –, visto que a loja é de sua esposa, mas não pode pagar sem se quebrar financeiramente.

      Ed não o aconselha, na verdade. Apenas escuta. E Dave paga, o barbeiro pega o dinheiro e, no mesmo dia, vai até Creighton pra entregar o dinheiro e “começar” o negócio. O problema é que Dave descobre tudo, e, numa noite, chama Ed na loja e conta que descobriu tudo. Os dois entram em luta corporal e Ed o mata. Como era tarde da noite e ninguém o viu, ele simplesmente sai da loja e volta pra casa. Tudo – e eu disse tudo mesmo – começa a dar errado a partir daí. Uma história aparentemente simples foge de controle, e a vida do mal-humorado barbeiro Ed Crane vira de pernas pro ar.


      The Man Who Wasn’t There é um retrato simples, mas intenso, de uma vida que tinha tudo pra ser constante do início ao fim. Ed é um ser humano totalmente alheio à sua realidade – ele simplesmente não está lá. Não vi Ed dar uma risada, ou um sorriso aberto, durante quase duas horas de filme. Além disso, o que mais me surpreendeu foram as questões existenciais que ele aborda – desde o crescimento do cabelo humano até seu próprio casamento.

      A narração em primeira pessoa dá a impressão de que você é Ed Crane. E, se você parar pra pensar, você pode ter algo dele. É claro que não tão niilista nem tão azarado, mas, se você é infeliz no casamento, no trabalho, ou insatisfeito com a própria vida que leva, SIM, sinto informar, mas há algo do Crane em você. Cabe a cada um de nós fazer o possível pra que as coisas sejam diferentes.

      Lições de moral à parte (foco, Stephanie, haha), The Man Who Wasn’t There é um ótimo filme. Faz pensar em uma série de coisas, e te surpreende em uma série de pontos – sem dar spoiler, e pra dar um exemplo, tem uma parte do filme que se parece um bocado como filme Lolita (muito bem resenhado pela Rebeca aqui no blog). Enfim, super recomendo. Até a próxima. 


Resenha por: Stephanie Eschiapati

sábado, 15 de dezembro de 2012

Eu matei minha mãe

      Título forte, que me atraiu pra assistir ao filme. Não me arrependi. 

J'AI TUÉ MA MÈRE (2009)


      O filme tem um roteiro aparentemente simples:  a dura convivência entre Hubert, um adolescente de 17 anos (vivido por Xavier Dolan, que também dirige a película – aliás, invejinha básica dele, afinal, dirige e protagoniza um filme tão intenso aos 23 anos de idade) e sua mãe, Chantal (Anne Dorval). É a típica família monoparental, pois, após o divórcio dos pais (que ocorreu quando Hubert tinha sete anos), seu pai, Richard (Pierre Chagnon), se afasta consideravelmente dos dois.


      Hubert podia ser só um adolescente revoltado como tantos outros, mas é perceptível que a revolta dele não é normal: ele odeia a mãe, e não é aquela raivinha que bate quando a mãe não deixa sair, não, é ódio mesmo. Ele odeia as roupas que ela veste, o jeito como ela come e como mantém a casa. Qualquer assunto dá margem a discussões, permeadas por palavrões e muita falta de respeito. 

      Chega a dar aflição acompanhar as brigas. Mesmo porque elas começam por motivos extremamente fúteis e terminam sem pé nem cabeça. Grande parte do filme gira em torno dessas discussões, que dividem espaço com manifestações de amor incondicional entre mãe e filho. É tudo muito estranho, pra ser sincera.

      Um detalhe muito interessante é que várias cenas do filme parecem um documentário: Hubert fica em frente à câmera falando o que sente pela mãe. São sentimentos confusos, pois, segundo ele mesmo, ele a ama, mas não como filho; mataria alguém que tocasse nela, mas existem centenas de pessoas que ele ama mais do que a própria mãe.



      Hubert começa uma grande amizade com sua professora, Julie (Suzanne Clément), em decorrência de seus problemas familiares. Os dois compartilham a mesma dor: enquanto o garoto não se dá bem com a mãe, a professora não se dá bem com o pai. 


      A situação fica ainda mais tensa quando os pais de Hubert – sim, OS PAIS, afinal, depois de quatro meses sem dar notícia, Richard Minel resolve dar as caras – decidem colocá-lo em um colégio interno. Isso aumenta ainda mais a revolta do garoto, que, devido a essa experiência, começa a ver a vida de um jeito diferente.


      Minha primeira reação ao término desse filme foi: “Nossa, preciso escolher um lado”. É mais ou menos por aí. São dois opostos: a mãe, mulher média, trabalhadora, que tem de criar um filho sozinha; e o filho de 17 anos, sensivelmente mimado e marrento. São as duas ópticas pelas quais você pode assistir a esse filme, e, ao final, ver quem tem razão – se é que alguém tem razão.

      Parcialmente falando, se é pra escolher um dos dois, eu escolho o da mãe. Vi um pouco de mim no Hubert, e o espectador provavelmente sentirá o mesmo. A questão é que sua mãe, apesar de parecer fria às vezes, é só uma mulher maltratada pela vida, cansada, sem paciência pros showzinhos do filho, na verdade. Não a critico porque não consegui  enxergar, no decorrer do filme, motivos reais pro Hubert ser tão revoltado. Ele apenas não conseguiu enfrentar, na boa, uma situação que tanta gente enfrenta hoje em dia: a separação dos pais.



      Críticas à parte, J'ai Tué ma Mère pode ser considerado um filme muito bom. A sensibilidade conferida à película por Xavier Dolan – por ser diretor e protagonista, na minha opinião – força, em cada cena, o espectador a pensar, se enxergar, como um espelho. Existe, existiu ou existirá um pouco de Hubert em cada um de nós, em maior ou menor intensidade. 

      Gosto de filmes em que os diálogos são fortes e os silêncios, reveladores. Esse filme é assim. A gente não precisa esperar que Hubert e Chantal se falem o tempo todo pra entender o filme; a sintonia entre Xavier Dolan e Anne Dorval é linda. O filme é forte como um todo: desde o seu título, no mínimo, controverso; até as cenas mais básicas, que te fazem parar e pensar: o que eu sinto pela minha mãe? Super recomendo, galera. Até.



Resenha por: Stephanie Eschiapati

      P.S.: Mamãe, te amo :3

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Túmulo dos Vagalumes

      Faz um dia que vi esse filme e ainda estou desidratada de tanto chorar. Pensem em um filme triste. Demasiadamente triste e que, mesmo sendo animação, retrata perfeitamente uma história que se passa durante a guerra no Japão de uma forma brutalmente realista, sendo digna, digo eu, de um Oscar.

HOTARU NO HAKA (1988)



      O filme começa pelo final, e já nesses quatro primeiros minutos conseguimos sentir a intensidade da história. Então, quando vocês acabarem de assisti-lo, voltem ao começo, pois o que está lá com certeza irá ampliar os sentimentos de emoção e tantos outros em torno de 200%. Sim, é isso mesmo.

      A história se passa durante Segunda Guerra Mundial, no Japão, na época em que ocorreu o bombardeamento de Kobe. Dois irmãos, Seita e Setsuko, tentam sobreviver aos inúmeros bombardeios feitos pelos aviões de guerra. De início, ainda contam com a ajuda de sua mãe, mas infelizmente ela é atingida em um dos ataques, deixando os irmãos à beira de suas próprias sortes para sobreviverem da maneira que conseguirem: sozinhos. O pai está lutando na guerra, mas é dado como desaparecido, o que diminui ainda mais as esperanças do irmão mais velho, Seita, de que ele e sua irmã sobrevivam. Porém, nenhum desses acontecimentos faz com que ele desista. Ele luta bravamente para conseguir um lugar onde ficar e, acima de tudo, conseguir comida. O mais importante para ele, no momento, é manter sua irmã a salvo – Seita tem 12 anos e sua irmã aproximadamente 4 anos.


(Seita e Setsuko)

      Este filme é uma adaptação do livro que leva o mesmo nome (Hotaru no Haka)e a animação foi criada e dirigida pelo Studio Ghibli (o Studio Ghibli foi fundado pelo diretor do filme, Isao Takahata, e também pelo meu diretor preferido, Hayao Miyazaki, que não tem participação nesta película).

      As crianças conseguem se hospedar em uma casa, mas a dona, realmente sem motivo algum, começa a repelir os irmãos para que procurem outro lugar para morar. Mesmo morando sob um teto, é dificílimo arrumar comida nesses tempos de guerra. Imaginem, então, a situação de duas crianças sem um lugar para (sobre)viver. E é isso o que acontece – não podendo mais ficar nesta casa, Seita e Setsuko vão morar, literalmente, no meio do mato, em uma espécie de abrigo construído debaixo de uma montanha. Chega um momento em que Seita não consegue mais comprar comida para a sobrevivência de ambos; então, durante os ataques aéreos, ele arrisca sua própria vida furtando as casas vazias, enquanto os moradores se alojam nos abrigos.

      É realmente impressionante como cada personagem, mesmo através de um desenho, consegue retratar diversas emoções. Setsuko é uma garotinha feliz, angelical, que encanta todos ao seu redor; Seita, por sua vez, é um garoto valente, que faz de tudo para proteger sua pequena irmã de todos os males da guerra. Este sentimento de piedade e compaixão que os personagens repassam, infelizmente, não consegue atingir os outros personagens da trama. Muitas pessoas observam a situação pela qual os irmãos estão passando e, mesmo assim, agem com ignorância e indiferença, como se eles fossem apenas mais duas crianças predestinadas a morrer. Negam-lhes comida, abrigo e remédio. Mesmo em tempos de guerra, referidas atitudes não são justificáveis.

      Tudo isso ainda é demonstrado quando a pequena Setsuko fica doente. Além de várias doenças de pele, decorrentes do fato de morarem no meio do mato, sem possuírem qualquer meio de higiene pessoal, ela também é atacada por uma terrível desnutrição, devido à escassez de alimentos. Mesmo levando a irmã ao médico, ele se recusa de uma forma muito fria e cruel em ceder alguma medicação à garotinha. Todos desprezam os irmãos de uma forma tão cruel e sem coração, que é impossível não ficar triste durante o decorrer da história.




      A narrativa do filme é bem simples; a história segue uma ordem cronológica básica sobre a história dos irmãos, sem nenhum truque, sem nenhuma interferência, e, ainda assim, o teor trágico predomina durante toda a trama. Nesse caso, não podemos dizer que a “diferença está nos detalhes”. Aqui, a diferença está na simplicidade, o que deixa tudo mais real (principalmente os sentimentos e as emoções).

      Pra vocês entenderem a profundidade especial deste filme, ficamos com um sentimento altruísta mesmo já sabendo o que vai acontecer. É como se não nos conformássemos; esperamos que apareça uma solução para o que está acontecendo; esperamos ver um sorriso, novamente, no rosto de cada personagem. A nossa esperança, bem como a dos protagonistas, é a última que morre.

      Todas as cenas possuem detalhes especiais, principalmente aquela que dá nome ao filme. Quando vão morar no mato, Setsuko não consegue dormir devido à escuridão do local. Ela e o irmão, então, capturam vários vagalumes para iluminar a “moradia”. No dia seguinte, Setsuko enterra os animais, e lamenta por terem um período de vida tão curto – e isso nos remete ao que está acontecendo com todas as pessoas nessa época de guerra. E assim, também, podemos relacionar a vida de Setsuko com a de um vagalume – sem os cuidados necessários, o que era pra ser uma vida feliz, longa e digna, passa a ser efêmera e com um mínimo de felicidade.



      Há cenas que mostram exatamente a simplicidade das pequenas coisas – quando Setsuko está com fome e Seita não consegue comida para lhe dar, ela apenas se contenta com pequenas balas de fruta que ficam guardadas dentro de uma caixinha de metal. O valor psicológico e sentimental que esta caixinha representa na trama também possui certa profundidade. Quando nos lembramos dessa caixinha, todos os sentimentos que ocorreram enquanto assistíamos ao filme vêm à tona.

      Simples, inocente, profundo, um retrato impecável da Segunda Guerra Mundial, que mostra com exatidão, de uma forma trágica e intensa, a vida de quem tentou sobreviver em meio a tanto caos. É uma história de sobrevivência maravilhosa, sobre um amor incondicional entre os dois irmãos, protagonistas da história, bem como sobre a indiferença e repugnância dos terceiros com os quais tentaram se envolver ao pedir socorro.

      Se através de uma animação conseguiram retratar todas as coisas horríveis que aconteceram durante a guerra (e sem cunho político), apenas para demonstrar as dificuldades decorrentes desse acontecimento histórico, um sentimento horroroso me atinge só ao imaginar como tudo isso aconteceu na realidade. Ademais, o filme chega a ser tão bom que, apenas com a trilha sonora, e sem as cenas intensas de dor e tristeza, o sentimento fica à flor da pele.


      Preparem o coração, pois esse é um daqueles filmes chocantes e cheio de emoções ao decorrer de toda a história. Ninguém deve deixar de apreciar esta obra maravilhosa.


“Saito, por que os vagalumes têm de morrer tão cedo?”

      Link para download (formato AVI legendado):
      Clique aqui.

Resenha por: Rebeca Reale

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

1984

      Tendo em vista que comprei um livro do George Orwell hoje, senti uma necessidade incrível de fazer um post em homenagem a ele. E a um dos livros mais lindos, perfeitos, maravilhosos e lindos que já li em toda a minha vida (falei “lindo” duas vezes, né? É a emoção, gente).

1984 (1984)


(Tradução: Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado)

      Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força: essas são as máximas do Socing, governo totalitário “110%” controlador da Oceânia. Todos aqueles que concordam com os ideais do partido andam com a mesma roupa e têm empregos tecnicamente parecidos, além de terem sua liberdade retirada por completo. É assim que vive Winston Smith (John Hurt), protagonista da história, que, em dado momento, compra um diário no bairro dos proletas (uma referência ao proletariado, que, apesar de parte majoritária da população, estão completamente à margem da sociedade) e começa a escrever suas ideias que contestam as máximas do Partido. É claro que ele faz isso na surdina, pois as teletelas estão em todo lugar.

      Sim, há monitores que transmitem a vida das pessoas em suas casas, locais de trabalho, rua etc. Não há intimidade. Vem daí outra máxima do Partido, Big Brother is watching you (“O Grande Irmão está de olho em você”) e o Grande Irmão é o líder supremo do Partido.

(O Grande Irmão)

      O controle que o Partido busca é total. Até o idioma falado muda: trata-se da “Novafala”, que procura, através da supressão de palavras, mitigar o pensamento das pessoas a ponto de não restarem palavras pra se pensar mal do Partido. Parece maluco, mas é bem assim. Inclusive, há um dicionário dessa nova língua, que, no filme, é usado como pretexto para um importante acontecimento.

      Todos os dias os funcionários dos Ministérios (Verdade, que cuida das informações mentirosas que o governo publica, Paz, que cuida da guerra, e Amor, que cuida do tratamento ~carinhoso~ dado aos subversores do Partido) param suas atividades por dois minutos para demonstrar todo o seu ódio a Goldstein, o inimigo público e mais perigoso da Oceânia e do Grande Irmão. São os “Dois Minutos do Ódio”. É aí que WinstonJulia (Suzanna Hamilton) pela primeira vez, e nutre por ela um ódio extremo, pois tem certeza de que ela faz parte da Polícia das Ideias (o órgão mais perigoso do Partido, aquele que busca cada detalhe do que as pessoas pensam pra saber se suas ideias são ou não contrárias à ordem).

      Entretanto, não é bem assim: numa manobra sutil, Julia entrega um bilhete a Winston dizendo que o ama. Começa, então, a relação dos dois, em segredo, primeiro, porque funcionários do Partido não podiam nutrir quaisquer envolvimentos amorosos senão com fins de reprodução, e, segundo, porque Julia também odeia o Grande Irmão e toda a baboseira falsa que envolve o governo.

(O primeiro contato entre Winston e Julia)

      É aí que entra O’Brien (Richard Burton), um dos funcionários de mais alto escalão do Partido. Winston sempre sentiu certo tipo de confiança nele, pois achava, lá no fundo, que sua fidelidade ao sistema era falsa. E é isso mesmo o que acontece: O’Brien aparece a Winston e se revela um aliado de Goldstein, e busca nele e em Julia mais aliados a fim de acabar com a tirania do Grande Irmão. A história rola, então, no amor entre Winston e Julia e as colaborações de O’Brien. Paro por aqui de contar a história. 

(Winston, à esquerda; O'Brien, à direita)

      1984 é mais um daqueles filmes com um bilhão de reviravoltas, cujo final te deixa pensativo. Passo, então, às minhas considerações pessoais a respeito do filme (e do livro, claro).


      
      1984 traz uma visão metafórica de sociedade. Uma sociedade que Orwell viveu e previu que poderia se repetir, dados os acontecimentos da época (estamos falando de 1948). Então, todo aquele exagero em relação às teletelas e às informações mentirosas que o governo divulga pra manter a população sob controle têm um sentido. E digo mais, digo que Orwell teve vieses de Nostradamus, porque hoje existe tanta câmera por aí que você se sente observado mesmo.


      

      Quanto ao livro, amei, daria 5 estrelas por ele. O filme, entretanto, deixa a desejar, o que é perfeitamente compreensível, visto que seria difícil demais reproduzir com fidelidade tudo o que Orwell escreveu. É muito profundo, gente. São cenas intensas, que ficam na cabeça, impossíveis de não imaginar. Já o filme, por sua vez, deixou algumas partes importantes do livro pra trás (por isso a nota oito, aliás).
      Foram poucos os filmes que vieram de livros que não me decepcionaram. 1984 é um deles. Winston, Julia, O’Brien e até o Grande Irmão eram exatamente o que eu imaginava que seriam. Até as teletelas condisseram com o que eu imaginei enquanto lia. Aliás, como conselho pessoal, recomendo que se leia o livro antes de ver o filme, que, exatamente por alguns detalhes do livro deixados no caminho, pode se tornar meio confuso pra um marinheiro de primeira viagem. No mais, o filme é forte, intenso, incômodo – e, se você pensar no tipo de sociedade em que vivemos hoje (com essa exacerbação da mídia na intimidade das pessoas e da nossa própria exposição nas redes sociais), você pensa: será que o Grande Irmão já não está entre nós? Enjoy the movie, peace out.


Resenha por: Stephanie Eschiapati