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domingo, 28 de abril de 2013

Querida, vou comprar cigarros e já volto

      Você aceitaria voltar no tempo com a cabeça que tem hoje, por um milhão de dólares?

QUERIDA VOY A COMPRAR CIGARRILLOS Y VUELVO (2011)



      Queridos leitores, vocês não leram errado. É realmente em torno dessa proposta um tanto quanto maluca que se desenvolve o filme sobre o qual vou escrever hoje, uma bela película argentina que não me arrependi de ver. Aliás, como já disse a Rebeca no Después de Lucía, os filmes estrangeiros vêm ganhando cada vez mais espaço, e este é realmente sensacional.

      Bom, mas vamos à história, com calma. Primeiro, a gente tem que conhecer quem foi a pessoa que elaborou a proposta. Trata-se de um tipo do Marrocos, que, andando pelo deserto, tomou nada mais, nada menos, que DOIS raios na cabeça (expliquem essa, ateus): um o matou, o outro, o reviveu, dando-lhe alguns poderes e a imortalidade. Desde então, ele anda pelo mundo fazendo “o que lhe dá na telha” pois, em vez de ficar famoso exibindo seus poderes extraordinários por aí, ele preferiu manter-se no anonimato. No filme, ele é apenas “o cara” – não tem nome, e é interpretado por Eusebio Poncella.


      Ele chega, então, na pacata cidade de Olivarría, na Argentina, e vai a um pequeno restaurante. Com seus poderes, consegue ouvir o pensamento de todos no local, mas um, em particular, o interessa bastante: de Ernesto (Emilio Disi), que almoça com sua esposa, Rosa (Emma Rivera), mas pensa no grande fracasso que foi sua vida.



      Quando ela vai ao banheiro, o homem dos poderes chega em Ernesto e faz a proposta: voltar a qualquer período de seu passado – infância ou juventude – por 10 anos, com a cabeça que tem hoje, ou seja, a de um homem de 63 anos. Se para ele passar-se-ão 10 anos, para quem está aqui o tempo dessa viagem não será maior que 5 minutos – o tempo de ir até o bar e comprar cigarros. Tudo isso por um milhão de dólares.


      Claro que o negócio parece sensacional, mas há duas regras principais: se Ernesto se meter em alguma encrenca por lá e morrer, ele tem um ataque cardíaco fulminante aqui e nada de material que ele conquistar lá poderá ser transportado pra cá.

      Sem tempo para pensar, Ernestito aceita o desafio, e escolhe a data de 01 de outubro de 2000 para voltar. E a coisa já não dá muito certo, porque ele vai ao asilo em que a mãe está para tentar se reconciliar com ela e ela não o perdoa.

      Claro que eu não vou contar as coisas que lhe aconteceram, visto que toda a graça do filme se perderia. Mas devo dizer que ele volta, basicamente, às três épocas de sua vida (velhice mesmo – afinal, ele tinha 53 anos em 2000 –, juventude e infância) e percebe que o milhão de dólares prometido não chegará às suas mãos tão facilmente quanto pensou que chegaria.

      Querida voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo é baseado no conto de mesmo nome escrito por Alberto Laiseca, que também é narrador do filme. Sim, o autor aparece e, além de contar algumas partes do filme, dá sua opinião nas escolhas de Ernestito. Lembra um pouco o que John Waters fez em Pink Flamingos, ainda que este só apareça ao final do filme.


      Devo dizer que foi um dos filmes mais niilistas que já vi. “A vida é um bolo de merda” e afins são frases comuns no filme. Laiseca é um homem visivelmente pessimista (ou realista, depende do ponto de vista), e esfrega isso na nossa cara através de Ernesto: ele é um homem feio, tem uma esposa feia e um emprego que odeia. Pra vocês terem uma noção, o animal de estimação do nosso protagonista é uma tartaruga – mais um elemento demonstrador da paradeira que é a vida daquele homem. Pra mim, o filme é o retrato do tédio, e de uma vida inteira que deu errado – ou, pelo menos, não deu certo.

      A temática da volta no tempo pode ser considerada lugar-comum no cinema. Filmes como a trilogia Back to the Future, The Terminator e Butterfly Effect tratam desse tema, e deixam bem claro que voltas ao passado ou idas ao futuro podem ser bem perigosas.


      Aqui, apesar do tema ser igual, a história não tem como foco essa necessidade de voltar ou ir pra frente com o propósito de salvar o mundo ou tentar desfazer coisas ruins. O imortal escolhe Ernesto porque sabe que ele simplesmente nunca viveu. E quer lhe dar a oportunidade de viver – e bem que Ernesto reclama que em sua vida sempre lhe faltaram oportunidades.

      O que nos faz pensar, claro, na proposta e em toda a nossa vida. Será que voltar no tempo com a consciência e experiência que temos hoje nos traria bons resultados? Será que voltar no tempo e tentar solucionar eventuais problemas pendentes teria reflexos positivos no presente? E, afinal, se tivéssemos a chance de voltar e “fazer tudo diferente” realmente faríamos tudo diferente?

      Tá aí um filme que, com apenas 1 hora e 20 minutos, me fez pensar bastante. Super recomendo, sempre bom refletir. Até a próxima.

“As diversas idades de um homem, eu as denominaria de campo de concentração. A cada ano, um arame farpado eletrificado a mais. Trinta já é Auschwitz.”

Resenha por: Stephanie Eschiapati