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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Mary e Max - Uma Amizade Diferente

      “Deus nos dá familiares. Graças a Deus podemos escolher nossos amigos.”

MARY AND MAX (2009)



      A grandiosa frase acima, de Ethel Mumford, traduz exatamente sobre o que se trata o filme Mary and Max: uma história de amizade. Mas fiquem atentos: não é uma amizade normal, como essas banais que temos por aí. Como traduzido para a língua brasileira, trata-se de “Uma Amizade Diferente”, e isso ocorre devido às características peculiares presentes em cada personagem, principalmente em Mary e em Max. Começarei descrevendo-os.

      MARY:


      Mary é uma menina de oito anos que vive na Austrália dos anos 70, e o fator preponderante de sua vida é a infelicidade. No começo do filme, suas características são apresentadas, conforme veremos a seguir:

- ela tem na testa uma marca de nascença da cor de cocô;
- ela usa um anel de humor que sempre fica cinza, o que significa que ela pode estar pensativa, inconscientemente ambiciosa ou com fome;
- seus únicos amigos são Os Noblets, bonecos de seu desenho preferido; ela os adora porque são marrons, moram em bule de chá e têm um monte de amigos.
- ela ama comer leite condensado direto na lata.

      Desde já começamos a perceber a influência que (in)felizmente a família exerce sobre a personalidade de Mary. Precisamos, portanto, conhecer também as pessoas que convivem com ela.

      O hobby do pai de Mary é sentar-se em seu barraco, beber Licor Irlandês e empalhar os pássaros que encontrou nas beiras das estradas (vale ressaltar que um dos desejos de Mary é que seu pai passasse mais tempo com ela do que com os animais mortos).

      Mary também se sente confusa e estranha em relação a sua mãe, uma senhora que, dentre tantas outras doenças, é alcoólatra e cleptomaníaca (sua desculpa para justificar os inúmeros furtos é que ela estava “emprestando” as coisas).

      MAX:


      Max vive em Nova York e, como Mary, também é infeliz com a vida que leva. Algumas de suas características:

- ele adora assistir Os Noblets, principalmente porque eles têm um monte de amigos;
- ele ama comer cachorro-quente de chocolate (inventado por ele mesmo);
- seu cérebro é muito objetivo;
- ele tem Síndrome de Asparger.
- ele é gordinho e participa do Comedores Anônimos (local que odeia frequentar, principalmente às quintas-feiras, pelo seguinte motivo: uma senhora, também participante do grupo, sempre lhe envia sinais não-verbais, como, por exemplo, piscadelas, deixando Max confuso e sem entender o que está acontecendo).

      Outra abordagem do filme é a relação/comparação entre a curiosidade infantil e a curiosidade das pessoas portadoras de síndrome de Asparger, como a questão "de onde vêm os bebês". O avô de Mary conta a ela que, na Austrália, os bebês são encontrados no fundo dos copos de cerveja. Porém, a curiosidade de Mary supera distâncias: para ela, os bebês só nasciam desse jeito na Austrália; e nos outros lugares, de onde surgiam?

      Certo dia, ao explorar uma lista telefônica de Nova York, Mary repara em como são esquisitos os nomes das pessoas. Recordando-se da questão levantada por seu avô, surge o desejo de saber como os bebês nascem nos Estados Unidos. Ela teve, então, uma brilhante ideia: escrever para alguém da lista telefônica e perguntar como surgiam os bebês. E Max Horowitz foi o escolhido. Assim, ela escreve uma carta à Max questionando se, na América, os bebês eram encontrados dentro das latinhas de refrigerante, pois lá as pessoas bebiam muita Coca-Cola. E esse foi o primeiro passo para uma amizade cheia de surpresas. No final da carta, Mary pede que Max escreva de volta, e desejou sinceramente que pudessem ser amigos.


      Max recebe a carta e a lê quatro vezes. Sempre que algo inesperado, novo e misterioso surge na vida de Max, ele se sente confuso e recua, pois essa é uma das características dos portadores da síndrome de Asparger. Ele gosta de coisas estáveis. Um exemplo desse estilo de vida (estável) é demonstrado nos momentos em que seu peixe Henry morre: no dia seguinte Max sempre vai à loja e compra um peixe novo, para que sua vida não fique instável e irracional.

      Ele tem 44 anos e acredita que as pessoas são muito confusas. Por que elas sempre jogam bitucas de cigarro no chão? Por que não respeitam as leis? Por que não são objetivas e diretas?

      “Nova York é um lugar muito agitado e barulhento. Eu preferiria viver em algum lugar mais calmo, como a lua. Não gosto de multidões, luzes por todos os lados, barulhos e cheiros fortes. Nova York tem tudo isso, especialmente os cheiros. Eu acho os humanos interessantes, mas é difícil de entendê-los. Eu penso, porém, que vou entender e confiar em você.


      Qualquer pessoa no mundo, em normais circunstâncias, deseja ter um amigo, correto? E isso não é diferente com aquelas que possuem problemas mentais, físicos ou quaisquer outras ocorrências relacionadas. Max queria muito um amigo e, por este motivo, depositou toda a sua confiança na carta que escreveu à Mary, esperando ansiosamente que ela atendesse às suas expectativas, para criar, assim, uma grande amizade.

      “Max esperava que Mary fosse escrever para ele novamente. Ele sempre quis ter um amigo. Um amigo que não fosse imaginário, animal de estimação ou boneco de brinquedo. Ele contou as estrelas e imaginou quantos dias, horas, minutos iria levar para que sua carta chegasse à Austrália.



      Quando Mary recebe a carta, ela fica animadíssima, como se sua vida estivesse prestes a mudar (para melhor). Ao escrever de volta à Max, ela pede que as cartas sejam enviadas ao seu vizinho, para que não corresse novamente o risco de sua mãe encontrá-las e jogá-las no lixo, como já havia acontecido. O vizinho, como todos os personagens da "peça", também possui uma doença: agorafobia, que é o medo enorme de sair de dentro de casa. Ele também é paraplégico. Quando Mary responde a carta de Max, ela diz que seu vizinho tem “homofobia” (medo de sair de casa).

     Vinte anos se passam, e Mary e Max continuaram se correspondendo.



      Apesar de ser uma bela amizade, é sabido que as coisas no mundo não tendem a permanecer eternamente coloridas e estáveis. Os problemas sempre surgem, porém é maravilhoso ver como ambas as personagens lutam para que essa amizade tão forte, que durou por tanto tempo, não seja destruída. É inevitável: as pessoas erram (shit happens!). Mas os erros também devem ser perdoados.


      Esse pequeno resumo que fiz foi com base em trinta minutos de filme (que possui o total de uma hora e meia). Apesar de parecer algo triste, um filme acometido com personagens doentes e esquisitas, não se trata de nada disso. Esse filme é como a vida, tem seus altos e baixos, seus momentos de tristeza e de felicidade, de amizade, raiva, amor, diferenças, indiferenças e, acima de tudo, superação e perdão. Não vou contar o resto do filme (odiamos spoilers com todas as nossas forças!), pois o que já foi dito é o suficiente para que todos queiram ter a experiência de assisti-lo (espero eu, né?). Não tem como não se emocionar. Não tem como não se admirar. Não tem como não se apaixonar. Só digo uma coisa a vocês: raramente será encontrado um filme que retrata tão bem a vida com toda a sua beleza e simplicidade.

Resenha por: Rebeca Reale

      Link para download (formato AVI + legenda):
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sábado, 17 de agosto de 2013

Elena

      Pouco a pouco as dores viram água, viram memória. As memórias vão com o tempo, se desfazem. Mas algumas não encontram conforto, só algum alívio nas pequenas brechas da poesia. Você é a minha memória inconsolável, feita de pedra e de sombra. E é dela que tudo nasce. E dança.

ELENA (2012)


      Nunca pensei que consideraria um filme brasileiro como meu favorito. Sim, tenho aquele preconceito ridículo que a maioria das pessoas tem, e constantemente filmes brasileiros me decepcionam. Mas com Elena foi diferente. Como disse Jorge Furtado, ''Petra inventou uma nova forma de filmar, filmou a alma''. E foi exatamente com a alma que eu assisti a esse filme. Hoje é sábado. Assisti Elena quinta-feira, sexta-feira e hoje, e a vontade de assistir novamente ainda não sumiu de mim.

      Um dos fatores que tanto influenciou meus sentimentos foi o fato de que a história se passa entre duas irmãs, uma mais velha e uma mais nova (e eu não pude deixar de me colocar no lugar delas, visto que a diferença de idade entre minha irmã e eu é praticamente a mesma). Elena é poesia, é alma, é amor. É uma história sobre consolação, sobre aprender a viver sem ter aquilo o que você mais deseja: a presença de alguém.


     O filme é um documentário biográfico. Petra Costa, diretora, conta a história de sua irmã, Elena Andrade, e como foi sua vida a partir de seu distanciamento. Petra volta à Nova York na intenção de encontrar Elena caminhando pelas ruas com sua blusa de seda. Leva com ela apenas lembranças que a irmã deixou no Brasil: filmes, recortes de jornais, diários e cartas. Petra precisa encontrar Elena para tentar continuar a viver. Se ela deixar Elena continuar vivendo em sua memória, e principalmente em sua alma, ela não conseguirá seguir em frente.

"Será que a minha raiz vai conseguir arrebentar asfaltos, canos e prédios pra sobreviver e gerar frutos? Sim, se minha raiz fosse forte, grande, mas sinto que a minha semente nem chegou a brotar direito ainda. Então, provavelmente em uma cidade, ela se brotasse, miúda e doente viveria."

      Elena nasceu na época da ditadura militar e viveu na clandestinidade. Seus pais, com desejo de revolução, queriam ir à guerra. Petra deixa claro o que salvou a vida deles: Elena, o bebê de seis meses na barriga da mãe. Desde os 4 anos de idade ela teve convicção de que queria ser atriz, como sua progenitora. Alguns anos depois, nasce Petra, com quem Elena passa os dias brincando de teatro e ensinando a atuar.



      Quando Petra faz 7 anos, sua irmã a leva até o quarto e lhe diz que ficariam separadas por algum tempo, pois ela iria morar longe. Elena está deixando de brincar de teatro para virar atriz. E Petra confirma: 7 anos foi realmente sua pior idade. Essa foi a primeira vez que Elena se distanciou da família.

      Elena, em Nova York, faz várias entrevistas, mas ninguém liga de volta. Ela começa a ficar deprimida, se acha feia e gorda, e sem esperanças de que algum dia sua raiz possa se tornar forte o suficiente para se fixar em algum lugar. Por tais problemas, ela volta ao Brasil, na esperança de poder se reencontrar. Porém, após um curto período de tempo, ela retorna à Nova York para começar suas aulas na Universidade, dessa vez levando consigo mãe e irmã.



      Petra odeia Nova York. Odeia o frio e o fato de ter que aprender inglês. Mesmo com a presença da família, Elena continua deprimida, chorando, gritando, apenas desejando dar um fim em sua vida. Ela deixa claro que, se ela não consegue viver com a arte, ela prefere morrer. A depressão fica evidente aos olhos da família, e isso influencia os sentimentos de Petra.

"Esse corpo tá doente. A vida o fez totalmente doente. Totalmente. Aquele eu descontrolado voltou e eu ajo como se atuasse, percebo tudo como numa tela de cinema: o meu tempo, respiração, os olhos ficando diferentes. O mundo tá vazio, deserto, não adianta esperar por ninguém. Você tá só, completamente só."

      A partir daqui, é impossível uma resenha sem spoilers. Mas vale a pena ler e assistir ao filme mesmo já sabendo a história.

      Elena critica a si mesma o tempo todo. Como eu disse, para ela, a vida sem arte não é vida, e dessa maneira ela prefere desaparecer do mundo, dormir para sempre, entrar na escuridão. Então, o inevitável acontece: Elena escreve uma carta e engole um frasco de aspirinas... com cachaça. Elena morre, deixando no mundo uma mãe feita de saudades, um pai que apenas olha para longe quando perguntam sobre ela, pois lhe faltam as palavras, e uma irmã que sofre sem a sua presença. “It hurts my feelings” foi a primeira frase que Petra disse quando viu a mãe triste e perguntou se sua babá havia morrido. Quando recebeu a resposta de que quem havia partido era sua irmã, ela achou o mundo um lugar completamente cruel.



     Petra, a partir daí, também foi diagnosticada com depressão. Tinha sentimentos de culpa e evitava falar de sua irmã. Um dia, quando tinha 10 anos, ela finalmente percebeu que Elena havia morrido pra sempre. “E ela, não volta mais?”. “Não. Ela tá morta".

"Uma tarde, dando voltas em círculos, eu percebo que você morreu. Pra sempre. Volto pra dentro da casa e percebo que minha mãe pode morrer. E penso que se pensei isso, quer dizer que ela vai mesmo morrer a qualquer momento. Que é um sinal. E que eu devo fazer tudo pra evitar. Começo a fazer promessas constantes: que eu não vou comer mais sal, que eu vou subir todas as escadas do nosso apartamento no décimo nono andar de joelhos e que nunca mais vou me olhar no espelho, pra ela não morrer. Sempre entrava no banheiro de olhos fechados."

      O tempo vai passando e as memórias vão sumindo, e Elena vai desaparecendo junto com elas. Petra cresce, e chega à época do vestibular. Agora, você já está mais velha do que Elena”. De última hora, ela decide fazer teatro, como a irmã. A partir daí, foi como se Elena voltasse. Não só na memória, mas dessa vez dentro da alma de Petra. Ela sente a irmã dentro de si, e mais, como sendo seu próprio ser. As duas irmãs vão se (con)fundindo em um só corpo, e Petra passa a se sentir da mesma forma como Elena se sentia nas semanas antes de morrer: deprimida, cansada e apenas desejando colocar fim nos momentos de infelicidade que ela estava vivendo.


      Se ela me convence que a vida não vale a pena, eu tenho que morrer com ela”. E para não pôr fim à própria vida, Petra precisa encenar sua própria morte, a morte dela e a de Elena, para que possa viver sem aquela sensação de que está se transformando na irmã. Dessa vez, Petra tem consciência da morte da irmã – um sentimento que veio com prazer e imensa dor. Elena passa a se materializar e sair do corpo de Petra na medida em que esta a busca nas ruas de Nova York, na medida em que encontra seus vídeos, cartas e lembranças.

"Eu quero morrer. Razão? Tantas que seria ridículo mencioná-las. Eu desisto, desisto porque meu coração tá tão triste que eu sinto achar-me no direito de não perambular por aí com esse corpo que ocupa espaço e esmaga mais o que eu tenho de tão, tão frágil."

      Desta forma, Petra supera a morte de Elena para continuar vivendo. Dessa vez, ela entende que Elena se foi para sempre, e que agora é apenas uma memória. Uma memória inconsolável, feita de pedra e de sombra. Mesmo sendo uma memória sem consolo, Petra aprendeu a se conformar para continuar com seu papel em seu próprio filme.

      Assim como, quando criança, ela entendeu que a pequena sereia precisou morrer para que um dia fosse o que queria ser, agora ela entende os motivos que fizeram Elena partir.

Resenha por: Rebeca Reale

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O Substituto (Desapego)

E nunca me senti tão profundo e ao mesmo tempo tão alheio de mim 
e tão presente no mundo” – Albert Camus.

DETACHMENT (2011)



      Detachment significa indiferença, distanciamento, desinteresse. O filme, no cinema nacional, já teve o nome de “Desapego”, o que faz jus a trama. Porém, como o brasileiro sempre gosta de piorar o que já está bom, traduziu Detachment de forma ordinária para: O SUBSTITO. Mas OK, a gente supera. Já aconteceram tantas traduções chulas nesse Brasil, que a gente acaba se acostumando, como tudo na vida.

      Enfim, here we go: dirigido por Tony Kaye (A Outra História Americana), o filme relata a história de Henry Barthes (Adrien Brody), um professor substituto que vai rumo ao seu novo emprego. A escola em que vai lecionar comporta os mais variados tipos de alunos, mas, em sua maioria esmagadora, aqueles que não dão a mínima ao professor, ao ensino e à escola. Resumindo: é um lugar que reúne os mais preconceituosos e violentos tipos. Sua relação vai ter como patamar quatro importantes bases: uma prostituta menor de idade, chamada Erica (Sami Gayle), uma professora da escola (Christina Hendricks), seu avô doente (Louis Zorich) e uma aluna, Meredith (Betty Kaye), que possui uma doença chamada obesidade.



      No decorrer do filme, flashbacks em paleta vermelha revelam momentos de sua infância, mais ou menos quando Henry tinha 7 anos. São momentos que, apesar de confusos no início, nos permitem perceber os motivos que levaram Henry a se tornar uma pessoa tão triste e alheia ao mundo ao seu redor. Cenas que envolvem imagens de sua mãe, mais as alucinações que seu avô tem, quando chama pelo seu nome e conversa com ela, sempre pedindo desculpas, apesar de ela já estar morta, nos trazem indícios de que alguma coisa ruim aconteceu na história dos dois. Mas Henry, com a pouca idade que tinha, nunca pôde compreender do que se tratava, por isso tem apenas lembranças vagas e insuficientes dos acontecimentos que ocorreram em sua infância.



      Não vou me atrever a julgar essa parte da relação com seu avô e sua infância como menos importante para a película. Acho que todos os momentos do filme possuem um certo peso essencial, que não podem ser excluídos. Logo, em decorrência, não vou dizer que o tema principal do filme é a educação norte-americana defasada. Dependendo do ponto de vista de cada um, pode ser que essa seja a parte principal, mas também pode ser que não a seja, devido a tantas outras partes importantes (como a crise existencialista, que é super abordada nesse filme).


      A próxima relação que vou discriminar, uma das mais bonitas e emocionantes do filme, é com a prostituta menor de idade, chamada Erica. Apesar de ser um tanto quanto niilista e alheio ao mundo, ele decide acomodá-la em sua casa, primeiro, por se tratar de uma criança, segundo, por ele ver o quão prejudicada pela vida ela foi, tanto no sentido físico quanto no mental. A relação que ele desenvolve com ela me lembrou muito a do Léon e Mathilda, no filme Léon (O Profissional, 1994). Quem já viu esse filme entende a beleza que o contato entre uma criança e um adulto desconhecidos pode estabelecer. Apesar de se dar bem com a pequena, seu perfil de desapego não desaparece, e ele sempre toma decisões que nem sempre refletem seus verdadeiros desejos.




      Uma das personagens mais marcantes desse filme é Meredith, garota obesa que é humilhada por várias pessoas, inclusive por seus pais (no filme, mostra especificamente as humilhações de seu pai). A questão da vida versus a morte, a questão do carpe diem e do suicídio, também são retratadas nesse filme, principalmente personificadas nessa garota. Se a escola comporta os piores tipos de aluno, imaginem a intensidade do bullying que ela sofre. Ela é um dos poucos alunos que realmente se dedicam à educação, e busca no professor Henry um suporte para seus problemas. Existem vários momentos do filme que mostram a relação de Henry com Meredith, e são tão fodas (com o perdão da palavra), e com acontecimentos tão chocantes, que isso se torna mais um forte do filme; dá aquela vontade de voltar o filme alguns minutos só pra apreciar novamente a intensidade das cenas.



      E, por fim, existe a relação dele com a Senhorita Madison (Christina Hendricks), que, apesar de ser efêmera, também é importante. Na essência, essa professora é um tanto quanto igual ao Henry – ela, por exemplo, afirma que possui medo de voltar sexta-feira de noite pra casa, pois não sabe como vai lidar com a vida que tem fora da escola. O apego que ela criou dentro do estabelecimento educacional transformou-a numa pessoa que não sabe lidar com o mundo afora.


      A crise existencial, posso afirmar, é o tema mais abordado nesse filme. Todos os personagens possuem problemas familiares, o que pode ser um dos principais fatores que os tornaram como são. Todos carregam uma máscara de suposto equilíbrio, satisfação, constância; mas, quando largam o expediente e voltam para suas casas, a situação se inverte, e o que antes foi disfarçado, explode em situações de tristeza e raiva. Resumindo, é como diz a música: vou negando as aparências, disfarçando as evidências. Uma das cenas mostra quando o véu cai e o sentimento de ódio, raiva, cansaço e insatisfação estoura sem controle – quando a psicopedagoga, Doutora Parker (Lucy Liu), joga na cara de uma aluna palavras fortes e realistas, sobre como é a falta de ambição que os alunos têm e que restará a ela (a aluna), se conseguir, apenas a sobrevivência à base de um salário mínimo.



      O papel do filme não é ser moralista, mas sim realista. O comodismo que existe atualmente é um dos principais alvos criticados. Muitas das pessoas que viram o filme disseram sentir-se deprimidas quando lembravam das cenas. Do jeito que o filme é montado, principalmente com o corte das cenas e com a trilha sonora ao fundo, realmente traz um sentimento estranho e angustiante. A filmagem é diferente da tradicional; é aquilo que muitos chamam de filme “alternativo”. Mas isso não impede que seja um filme maravilhoso; aliás, isso faz com o filme pareça mais intenso a cada minuto que passa. Você começa a assistir e a vontade de pausar, nem que seja pra ir ao banheiro, não existe mais. O filme simplesmente flui.

      Até que ponto a vida vale a pena? Não seria mais fácil se desapegar de tudo e todos, no sentido de não deixar o sentimento interferir nas relações? A morte não é o lado mais calmo? Se uma vida é cheia de tristeza e sofrimento, deveriam as pessoas escolher o outro lado, por ser mais fácil? De onde surgem tantos problemas, se apenas o que fazemos é nos esforçar pra fazer do mundo um lugar melhor? Até quando conseguiremos suportar a imensa pressão da sociedade sobre nossos ombros? Deduzi que essas são as principais questões abordadas no filme, e, resumindo em apenas uma pergunta: devemos continuar vivos?


      E, pra finalizar: mesmo que o filme fosse ruim, valeria a pena assisti-lo apenas pelo Adrien Brody (O Pianista). Gente, que ator é esse, hein?! Suas interpretações são tão magníficas que beiram ao real. Então, se alguém tem dúvida em assistir ou não a esse filme, veja apenas pelo Adrien, porque esse cara é brilhante.


Resenha por: Rebeca Reale

      Link para download (formatos RMVB legendado e HD):
      Clique aqui.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Eu matei minha mãe

      Título forte, que me atraiu pra assistir ao filme. Não me arrependi. 

J'AI TUÉ MA MÈRE (2009)


      O filme tem um roteiro aparentemente simples:  a dura convivência entre Hubert, um adolescente de 17 anos (vivido por Xavier Dolan, que também dirige a película – aliás, invejinha básica dele, afinal, dirige e protagoniza um filme tão intenso aos 23 anos de idade) e sua mãe, Chantal (Anne Dorval). É a típica família monoparental, pois, após o divórcio dos pais (que ocorreu quando Hubert tinha sete anos), seu pai, Richard (Pierre Chagnon), se afasta consideravelmente dos dois.


      Hubert podia ser só um adolescente revoltado como tantos outros, mas é perceptível que a revolta dele não é normal: ele odeia a mãe, e não é aquela raivinha que bate quando a mãe não deixa sair, não, é ódio mesmo. Ele odeia as roupas que ela veste, o jeito como ela come e como mantém a casa. Qualquer assunto dá margem a discussões, permeadas por palavrões e muita falta de respeito. 

      Chega a dar aflição acompanhar as brigas. Mesmo porque elas começam por motivos extremamente fúteis e terminam sem pé nem cabeça. Grande parte do filme gira em torno dessas discussões, que dividem espaço com manifestações de amor incondicional entre mãe e filho. É tudo muito estranho, pra ser sincera.

      Um detalhe muito interessante é que várias cenas do filme parecem um documentário: Hubert fica em frente à câmera falando o que sente pela mãe. São sentimentos confusos, pois, segundo ele mesmo, ele a ama, mas não como filho; mataria alguém que tocasse nela, mas existem centenas de pessoas que ele ama mais do que a própria mãe.



      Hubert começa uma grande amizade com sua professora, Julie (Suzanne Clément), em decorrência de seus problemas familiares. Os dois compartilham a mesma dor: enquanto o garoto não se dá bem com a mãe, a professora não se dá bem com o pai. 


      A situação fica ainda mais tensa quando os pais de Hubert – sim, OS PAIS, afinal, depois de quatro meses sem dar notícia, Richard Minel resolve dar as caras – decidem colocá-lo em um colégio interno. Isso aumenta ainda mais a revolta do garoto, que, devido a essa experiência, começa a ver a vida de um jeito diferente.


      Minha primeira reação ao término desse filme foi: “Nossa, preciso escolher um lado”. É mais ou menos por aí. São dois opostos: a mãe, mulher média, trabalhadora, que tem de criar um filho sozinha; e o filho de 17 anos, sensivelmente mimado e marrento. São as duas ópticas pelas quais você pode assistir a esse filme, e, ao final, ver quem tem razão – se é que alguém tem razão.

      Parcialmente falando, se é pra escolher um dos dois, eu escolho o da mãe. Vi um pouco de mim no Hubert, e o espectador provavelmente sentirá o mesmo. A questão é que sua mãe, apesar de parecer fria às vezes, é só uma mulher maltratada pela vida, cansada, sem paciência pros showzinhos do filho, na verdade. Não a critico porque não consegui  enxergar, no decorrer do filme, motivos reais pro Hubert ser tão revoltado. Ele apenas não conseguiu enfrentar, na boa, uma situação que tanta gente enfrenta hoje em dia: a separação dos pais.



      Críticas à parte, J'ai Tué ma Mère pode ser considerado um filme muito bom. A sensibilidade conferida à película por Xavier Dolan – por ser diretor e protagonista, na minha opinião – força, em cada cena, o espectador a pensar, se enxergar, como um espelho. Existe, existiu ou existirá um pouco de Hubert em cada um de nós, em maior ou menor intensidade. 

      Gosto de filmes em que os diálogos são fortes e os silêncios, reveladores. Esse filme é assim. A gente não precisa esperar que Hubert e Chantal se falem o tempo todo pra entender o filme; a sintonia entre Xavier Dolan e Anne Dorval é linda. O filme é forte como um todo: desde o seu título, no mínimo, controverso; até as cenas mais básicas, que te fazem parar e pensar: o que eu sinto pela minha mãe? Super recomendo, galera. Até.



Resenha por: Stephanie Eschiapati

      P.S.: Mamãe, te amo :3