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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Mary e Max - Uma Amizade Diferente

      “Deus nos dá familiares. Graças a Deus podemos escolher nossos amigos.”

MARY AND MAX (2009)



      A grandiosa frase acima, de Ethel Mumford, traduz exatamente sobre o que se trata o filme Mary and Max: uma história de amizade. Mas fiquem atentos: não é uma amizade normal, como essas banais que temos por aí. Como traduzido para a língua brasileira, trata-se de “Uma Amizade Diferente”, e isso ocorre devido às características peculiares presentes em cada personagem, principalmente em Mary e em Max. Começarei descrevendo-os.

      MARY:


      Mary é uma menina de oito anos que vive na Austrália dos anos 70, e o fator preponderante de sua vida é a infelicidade. No começo do filme, suas características são apresentadas, conforme veremos a seguir:

- ela tem na testa uma marca de nascença da cor de cocô;
- ela usa um anel de humor que sempre fica cinza, o que significa que ela pode estar pensativa, inconscientemente ambiciosa ou com fome;
- seus únicos amigos são Os Noblets, bonecos de seu desenho preferido; ela os adora porque são marrons, moram em bule de chá e têm um monte de amigos.
- ela ama comer leite condensado direto na lata.

      Desde já começamos a perceber a influência que (in)felizmente a família exerce sobre a personalidade de Mary. Precisamos, portanto, conhecer também as pessoas que convivem com ela.

      O hobby do pai de Mary é sentar-se em seu barraco, beber Licor Irlandês e empalhar os pássaros que encontrou nas beiras das estradas (vale ressaltar que um dos desejos de Mary é que seu pai passasse mais tempo com ela do que com os animais mortos).

      Mary também se sente confusa e estranha em relação a sua mãe, uma senhora que, dentre tantas outras doenças, é alcoólatra e cleptomaníaca (sua desculpa para justificar os inúmeros furtos é que ela estava “emprestando” as coisas).

      MAX:


      Max vive em Nova York e, como Mary, também é infeliz com a vida que leva. Algumas de suas características:

- ele adora assistir Os Noblets, principalmente porque eles têm um monte de amigos;
- ele ama comer cachorro-quente de chocolate (inventado por ele mesmo);
- seu cérebro é muito objetivo;
- ele tem Síndrome de Asparger.
- ele é gordinho e participa do Comedores Anônimos (local que odeia frequentar, principalmente às quintas-feiras, pelo seguinte motivo: uma senhora, também participante do grupo, sempre lhe envia sinais não-verbais, como, por exemplo, piscadelas, deixando Max confuso e sem entender o que está acontecendo).

      Outra abordagem do filme é a relação/comparação entre a curiosidade infantil e a curiosidade das pessoas portadoras de síndrome de Asparger, como a questão "de onde vêm os bebês". O avô de Mary conta a ela que, na Austrália, os bebês são encontrados no fundo dos copos de cerveja. Porém, a curiosidade de Mary supera distâncias: para ela, os bebês só nasciam desse jeito na Austrália; e nos outros lugares, de onde surgiam?

      Certo dia, ao explorar uma lista telefônica de Nova York, Mary repara em como são esquisitos os nomes das pessoas. Recordando-se da questão levantada por seu avô, surge o desejo de saber como os bebês nascem nos Estados Unidos. Ela teve, então, uma brilhante ideia: escrever para alguém da lista telefônica e perguntar como surgiam os bebês. E Max Horowitz foi o escolhido. Assim, ela escreve uma carta à Max questionando se, na América, os bebês eram encontrados dentro das latinhas de refrigerante, pois lá as pessoas bebiam muita Coca-Cola. E esse foi o primeiro passo para uma amizade cheia de surpresas. No final da carta, Mary pede que Max escreva de volta, e desejou sinceramente que pudessem ser amigos.


      Max recebe a carta e a lê quatro vezes. Sempre que algo inesperado, novo e misterioso surge na vida de Max, ele se sente confuso e recua, pois essa é uma das características dos portadores da síndrome de Asparger. Ele gosta de coisas estáveis. Um exemplo desse estilo de vida (estável) é demonstrado nos momentos em que seu peixe Henry morre: no dia seguinte Max sempre vai à loja e compra um peixe novo, para que sua vida não fique instável e irracional.

      Ele tem 44 anos e acredita que as pessoas são muito confusas. Por que elas sempre jogam bitucas de cigarro no chão? Por que não respeitam as leis? Por que não são objetivas e diretas?

      “Nova York é um lugar muito agitado e barulhento. Eu preferiria viver em algum lugar mais calmo, como a lua. Não gosto de multidões, luzes por todos os lados, barulhos e cheiros fortes. Nova York tem tudo isso, especialmente os cheiros. Eu acho os humanos interessantes, mas é difícil de entendê-los. Eu penso, porém, que vou entender e confiar em você.


      Qualquer pessoa no mundo, em normais circunstâncias, deseja ter um amigo, correto? E isso não é diferente com aquelas que possuem problemas mentais, físicos ou quaisquer outras ocorrências relacionadas. Max queria muito um amigo e, por este motivo, depositou toda a sua confiança na carta que escreveu à Mary, esperando ansiosamente que ela atendesse às suas expectativas, para criar, assim, uma grande amizade.

      “Max esperava que Mary fosse escrever para ele novamente. Ele sempre quis ter um amigo. Um amigo que não fosse imaginário, animal de estimação ou boneco de brinquedo. Ele contou as estrelas e imaginou quantos dias, horas, minutos iria levar para que sua carta chegasse à Austrália.



      Quando Mary recebe a carta, ela fica animadíssima, como se sua vida estivesse prestes a mudar (para melhor). Ao escrever de volta à Max, ela pede que as cartas sejam enviadas ao seu vizinho, para que não corresse novamente o risco de sua mãe encontrá-las e jogá-las no lixo, como já havia acontecido. O vizinho, como todos os personagens da "peça", também possui uma doença: agorafobia, que é o medo enorme de sair de dentro de casa. Ele também é paraplégico. Quando Mary responde a carta de Max, ela diz que seu vizinho tem “homofobia” (medo de sair de casa).

     Vinte anos se passam, e Mary e Max continuaram se correspondendo.



      Apesar de ser uma bela amizade, é sabido que as coisas no mundo não tendem a permanecer eternamente coloridas e estáveis. Os problemas sempre surgem, porém é maravilhoso ver como ambas as personagens lutam para que essa amizade tão forte, que durou por tanto tempo, não seja destruída. É inevitável: as pessoas erram (shit happens!). Mas os erros também devem ser perdoados.


      Esse pequeno resumo que fiz foi com base em trinta minutos de filme (que possui o total de uma hora e meia). Apesar de parecer algo triste, um filme acometido com personagens doentes e esquisitas, não se trata de nada disso. Esse filme é como a vida, tem seus altos e baixos, seus momentos de tristeza e de felicidade, de amizade, raiva, amor, diferenças, indiferenças e, acima de tudo, superação e perdão. Não vou contar o resto do filme (odiamos spoilers com todas as nossas forças!), pois o que já foi dito é o suficiente para que todos queiram ter a experiência de assisti-lo (espero eu, né?). Não tem como não se emocionar. Não tem como não se admirar. Não tem como não se apaixonar. Só digo uma coisa a vocês: raramente será encontrado um filme que retrata tão bem a vida com toda a sua beleza e simplicidade.

Resenha por: Rebeca Reale

      Link para download (formato AVI + legenda):
      Clique aqui.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O Substituto (Desapego)

E nunca me senti tão profundo e ao mesmo tempo tão alheio de mim 
e tão presente no mundo” – Albert Camus.

DETACHMENT (2011)



      Detachment significa indiferença, distanciamento, desinteresse. O filme, no cinema nacional, já teve o nome de “Desapego”, o que faz jus a trama. Porém, como o brasileiro sempre gosta de piorar o que já está bom, traduziu Detachment de forma ordinária para: O SUBSTITO. Mas OK, a gente supera. Já aconteceram tantas traduções chulas nesse Brasil, que a gente acaba se acostumando, como tudo na vida.

      Enfim, here we go: dirigido por Tony Kaye (A Outra História Americana), o filme relata a história de Henry Barthes (Adrien Brody), um professor substituto que vai rumo ao seu novo emprego. A escola em que vai lecionar comporta os mais variados tipos de alunos, mas, em sua maioria esmagadora, aqueles que não dão a mínima ao professor, ao ensino e à escola. Resumindo: é um lugar que reúne os mais preconceituosos e violentos tipos. Sua relação vai ter como patamar quatro importantes bases: uma prostituta menor de idade, chamada Erica (Sami Gayle), uma professora da escola (Christina Hendricks), seu avô doente (Louis Zorich) e uma aluna, Meredith (Betty Kaye), que possui uma doença chamada obesidade.



      No decorrer do filme, flashbacks em paleta vermelha revelam momentos de sua infância, mais ou menos quando Henry tinha 7 anos. São momentos que, apesar de confusos no início, nos permitem perceber os motivos que levaram Henry a se tornar uma pessoa tão triste e alheia ao mundo ao seu redor. Cenas que envolvem imagens de sua mãe, mais as alucinações que seu avô tem, quando chama pelo seu nome e conversa com ela, sempre pedindo desculpas, apesar de ela já estar morta, nos trazem indícios de que alguma coisa ruim aconteceu na história dos dois. Mas Henry, com a pouca idade que tinha, nunca pôde compreender do que se tratava, por isso tem apenas lembranças vagas e insuficientes dos acontecimentos que ocorreram em sua infância.



      Não vou me atrever a julgar essa parte da relação com seu avô e sua infância como menos importante para a película. Acho que todos os momentos do filme possuem um certo peso essencial, que não podem ser excluídos. Logo, em decorrência, não vou dizer que o tema principal do filme é a educação norte-americana defasada. Dependendo do ponto de vista de cada um, pode ser que essa seja a parte principal, mas também pode ser que não a seja, devido a tantas outras partes importantes (como a crise existencialista, que é super abordada nesse filme).


      A próxima relação que vou discriminar, uma das mais bonitas e emocionantes do filme, é com a prostituta menor de idade, chamada Erica. Apesar de ser um tanto quanto niilista e alheio ao mundo, ele decide acomodá-la em sua casa, primeiro, por se tratar de uma criança, segundo, por ele ver o quão prejudicada pela vida ela foi, tanto no sentido físico quanto no mental. A relação que ele desenvolve com ela me lembrou muito a do Léon e Mathilda, no filme Léon (O Profissional, 1994). Quem já viu esse filme entende a beleza que o contato entre uma criança e um adulto desconhecidos pode estabelecer. Apesar de se dar bem com a pequena, seu perfil de desapego não desaparece, e ele sempre toma decisões que nem sempre refletem seus verdadeiros desejos.




      Uma das personagens mais marcantes desse filme é Meredith, garota obesa que é humilhada por várias pessoas, inclusive por seus pais (no filme, mostra especificamente as humilhações de seu pai). A questão da vida versus a morte, a questão do carpe diem e do suicídio, também são retratadas nesse filme, principalmente personificadas nessa garota. Se a escola comporta os piores tipos de aluno, imaginem a intensidade do bullying que ela sofre. Ela é um dos poucos alunos que realmente se dedicam à educação, e busca no professor Henry um suporte para seus problemas. Existem vários momentos do filme que mostram a relação de Henry com Meredith, e são tão fodas (com o perdão da palavra), e com acontecimentos tão chocantes, que isso se torna mais um forte do filme; dá aquela vontade de voltar o filme alguns minutos só pra apreciar novamente a intensidade das cenas.



      E, por fim, existe a relação dele com a Senhorita Madison (Christina Hendricks), que, apesar de ser efêmera, também é importante. Na essência, essa professora é um tanto quanto igual ao Henry – ela, por exemplo, afirma que possui medo de voltar sexta-feira de noite pra casa, pois não sabe como vai lidar com a vida que tem fora da escola. O apego que ela criou dentro do estabelecimento educacional transformou-a numa pessoa que não sabe lidar com o mundo afora.


      A crise existencial, posso afirmar, é o tema mais abordado nesse filme. Todos os personagens possuem problemas familiares, o que pode ser um dos principais fatores que os tornaram como são. Todos carregam uma máscara de suposto equilíbrio, satisfação, constância; mas, quando largam o expediente e voltam para suas casas, a situação se inverte, e o que antes foi disfarçado, explode em situações de tristeza e raiva. Resumindo, é como diz a música: vou negando as aparências, disfarçando as evidências. Uma das cenas mostra quando o véu cai e o sentimento de ódio, raiva, cansaço e insatisfação estoura sem controle – quando a psicopedagoga, Doutora Parker (Lucy Liu), joga na cara de uma aluna palavras fortes e realistas, sobre como é a falta de ambição que os alunos têm e que restará a ela (a aluna), se conseguir, apenas a sobrevivência à base de um salário mínimo.



      O papel do filme não é ser moralista, mas sim realista. O comodismo que existe atualmente é um dos principais alvos criticados. Muitas das pessoas que viram o filme disseram sentir-se deprimidas quando lembravam das cenas. Do jeito que o filme é montado, principalmente com o corte das cenas e com a trilha sonora ao fundo, realmente traz um sentimento estranho e angustiante. A filmagem é diferente da tradicional; é aquilo que muitos chamam de filme “alternativo”. Mas isso não impede que seja um filme maravilhoso; aliás, isso faz com o filme pareça mais intenso a cada minuto que passa. Você começa a assistir e a vontade de pausar, nem que seja pra ir ao banheiro, não existe mais. O filme simplesmente flui.

      Até que ponto a vida vale a pena? Não seria mais fácil se desapegar de tudo e todos, no sentido de não deixar o sentimento interferir nas relações? A morte não é o lado mais calmo? Se uma vida é cheia de tristeza e sofrimento, deveriam as pessoas escolher o outro lado, por ser mais fácil? De onde surgem tantos problemas, se apenas o que fazemos é nos esforçar pra fazer do mundo um lugar melhor? Até quando conseguiremos suportar a imensa pressão da sociedade sobre nossos ombros? Deduzi que essas são as principais questões abordadas no filme, e, resumindo em apenas uma pergunta: devemos continuar vivos?


      E, pra finalizar: mesmo que o filme fosse ruim, valeria a pena assisti-lo apenas pelo Adrien Brody (O Pianista). Gente, que ator é esse, hein?! Suas interpretações são tão magníficas que beiram ao real. Então, se alguém tem dúvida em assistir ou não a esse filme, veja apenas pelo Adrien, porque esse cara é brilhante.


Resenha por: Rebeca Reale

      Link para download (formatos RMVB legendado e HD):
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