domingo, 28 de abril de 2013

Querida, vou comprar cigarros e já volto

      Você aceitaria voltar no tempo com a cabeça que tem hoje, por um milhão de dólares?

QUERIDA VOY A COMPRAR CIGARRILLOS Y VUELVO (2011)



      Queridos leitores, vocês não leram errado. É realmente em torno dessa proposta um tanto quanto maluca que se desenvolve o filme sobre o qual vou escrever hoje, uma bela película argentina que não me arrependi de ver. Aliás, como já disse a Rebeca no Después de Lucía, os filmes estrangeiros vêm ganhando cada vez mais espaço, e este é realmente sensacional.

      Bom, mas vamos à história, com calma. Primeiro, a gente tem que conhecer quem foi a pessoa que elaborou a proposta. Trata-se de um tipo do Marrocos, que, andando pelo deserto, tomou nada mais, nada menos, que DOIS raios na cabeça (expliquem essa, ateus): um o matou, o outro, o reviveu, dando-lhe alguns poderes e a imortalidade. Desde então, ele anda pelo mundo fazendo “o que lhe dá na telha” pois, em vez de ficar famoso exibindo seus poderes extraordinários por aí, ele preferiu manter-se no anonimato. No filme, ele é apenas “o cara” – não tem nome, e é interpretado por Eusebio Poncella.


      Ele chega, então, na pacata cidade de Olivarría, na Argentina, e vai a um pequeno restaurante. Com seus poderes, consegue ouvir o pensamento de todos no local, mas um, em particular, o interessa bastante: de Ernesto (Emilio Disi), que almoça com sua esposa, Rosa (Emma Rivera), mas pensa no grande fracasso que foi sua vida.



      Quando ela vai ao banheiro, o homem dos poderes chega em Ernesto e faz a proposta: voltar a qualquer período de seu passado – infância ou juventude – por 10 anos, com a cabeça que tem hoje, ou seja, a de um homem de 63 anos. Se para ele passar-se-ão 10 anos, para quem está aqui o tempo dessa viagem não será maior que 5 minutos – o tempo de ir até o bar e comprar cigarros. Tudo isso por um milhão de dólares.


      Claro que o negócio parece sensacional, mas há duas regras principais: se Ernesto se meter em alguma encrenca por lá e morrer, ele tem um ataque cardíaco fulminante aqui e nada de material que ele conquistar lá poderá ser transportado pra cá.

      Sem tempo para pensar, Ernestito aceita o desafio, e escolhe a data de 01 de outubro de 2000 para voltar. E a coisa já não dá muito certo, porque ele vai ao asilo em que a mãe está para tentar se reconciliar com ela e ela não o perdoa.

      Claro que eu não vou contar as coisas que lhe aconteceram, visto que toda a graça do filme se perderia. Mas devo dizer que ele volta, basicamente, às três épocas de sua vida (velhice mesmo – afinal, ele tinha 53 anos em 2000 –, juventude e infância) e percebe que o milhão de dólares prometido não chegará às suas mãos tão facilmente quanto pensou que chegaria.

      Querida voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo é baseado no conto de mesmo nome escrito por Alberto Laiseca, que também é narrador do filme. Sim, o autor aparece e, além de contar algumas partes do filme, dá sua opinião nas escolhas de Ernestito. Lembra um pouco o que John Waters fez em Pink Flamingos, ainda que este só apareça ao final do filme.


      Devo dizer que foi um dos filmes mais niilistas que já vi. “A vida é um bolo de merda” e afins são frases comuns no filme. Laiseca é um homem visivelmente pessimista (ou realista, depende do ponto de vista), e esfrega isso na nossa cara através de Ernesto: ele é um homem feio, tem uma esposa feia e um emprego que odeia. Pra vocês terem uma noção, o animal de estimação do nosso protagonista é uma tartaruga – mais um elemento demonstrador da paradeira que é a vida daquele homem. Pra mim, o filme é o retrato do tédio, e de uma vida inteira que deu errado – ou, pelo menos, não deu certo.

      A temática da volta no tempo pode ser considerada lugar-comum no cinema. Filmes como a trilogia Back to the Future, The Terminator e Butterfly Effect tratam desse tema, e deixam bem claro que voltas ao passado ou idas ao futuro podem ser bem perigosas.


      Aqui, apesar do tema ser igual, a história não tem como foco essa necessidade de voltar ou ir pra frente com o propósito de salvar o mundo ou tentar desfazer coisas ruins. O imortal escolhe Ernesto porque sabe que ele simplesmente nunca viveu. E quer lhe dar a oportunidade de viver – e bem que Ernesto reclama que em sua vida sempre lhe faltaram oportunidades.

      O que nos faz pensar, claro, na proposta e em toda a nossa vida. Será que voltar no tempo com a consciência e experiência que temos hoje nos traria bons resultados? Será que voltar no tempo e tentar solucionar eventuais problemas pendentes teria reflexos positivos no presente? E, afinal, se tivéssemos a chance de voltar e “fazer tudo diferente” realmente faríamos tudo diferente?

      Tá aí um filme que, com apenas 1 hora e 20 minutos, me fez pensar bastante. Super recomendo, sempre bom refletir. Até a próxima.

“As diversas idades de um homem, eu as denominaria de campo de concentração. A cada ano, um arame farpado eletrificado a mais. Trinta já é Auschwitz.”

Resenha por: Stephanie Eschiapati

terça-feira, 23 de abril de 2013

Depois de Lúcia

      Os filmes estrangeiros vêm ganhando espaço no cinema devido às suas ótimas películas, que se sobrepõem aos outros, tanto no quesito história quanto no quesito produção. Um desses filmes é Después de Lucía, que, para mim, é um belo exemplo de violência gratuita, mas com o intuito de demonstrar uma realidade que muitos tentam ignorar.

DESPUÉS DE LUCÍA (2012)



      Esse filme possui cenas fortes, que me fizeram pausá-lo várias vezes pra digerir o que estava acontecendo. Para conseguirmos uma resenha mais detalhada, terei que expor pelo menos uma das crueldades que acontecem com Alejandra durante o filme, mas vou deixar um alerta de “Spoiler!” antes, para que as pessoas que ainda não assistiram não fiquem bravas.

      Os primeiros minutos do filme são realmente parados, e isso pode fazer com que até os mais interessados desistam de assisti-lo. A câmera se localiza o tempo todo no carro do pai de Alejandra, protagonista da história. Digamos que os próximos minutos do filme não possuem vínculo algum com o resto da história, mas, se pensarmos bem, podemos comparar esse começo com o final do filme, especificamente a última cena: é demonstrado como o pai de Alejandra lida de forma não tão pacífica com as coisas que contrariam seus interesses. Tanto no começo quanto no final do filme, sua atitude revela essa falta de paciência.


      Os próximos minutos mostram a viagem que Alejandra faz com seu pai. Um acidente que matara a mãe de Alejandra fez com que os dois mudassem de cidade, com o intuito de tentar esquecer essa depressão que estava atingindo suas vidas. Bom, até aí tudo bem. E até alguns minutos depois, tudo bem também.


      Alejandra muda para uma nova escola. Uma escola um tanto quanto “autoritária”, cujas viagens escolares são obrigatórias, além de fazerem um exame de doping periodicamente nos alunos. No exame de Alejandra aparece um problema: constatação de maconha. Seu pai é chamado a comparecer na diretoria para ser informado sobre o fato, e é alertado que, se outra constatação como essa ocorresse novamente, a expulsão de Alejandra de certo aconteceria. Fora do estabelecimento educacional, pai e filha conversam, e podemos verificar o quão pacífico é o relacionamento dos dois: ele perdoa o que ela fez, sem mais delongas.




      A garota faz amigos na escola e aceita o convite para passar um final de semana na casa de um deles. Todos fumam maconha, mas Alejandra se recusa por medo do exame de doping escolar. E foi justamente esse dia o princípio de todo o sofrimento pelo qual ela passaria pelos próximos meses de sua vida: Alejandra transa com um dos amigos, permitindo que ele gravasse tudo com a câmera do celular. Ela não exigiu que ele apagasse o vídeo posteriormente, mas confiou que daquele aparelho nada sairia para o mundo das divulgações. A partir daqui é bem óbvio o que acontece: o vídeo vai parar na internet.


      Podemos perceber também que os “amigos” de Alejandra são todos falsos (also known as “falsianes”, hahaha). O garoto com quem ela transou se desculpou - disse que pegaram o celular dele e  postaram o vídeo sem sua autorização. Já as “amigas” não agem com a mesma atitude: uma delas era “ficante” desse garoto, e ela desempenhará o papel principal nos atos terríveis que serão praticados contra Alejandra.

      O filme trata, portanto, da questão do bullying. Só que esse bullying, na história de Alejandra, é algo horroroso, uma violência gratuita sem fim, com atos inimagináveis praticados contra uma pessoa que não fez nada demais. Alejandra é chamada de “puta” a todo instante, e eu vou contar agora uma coisa horrorosa que fizeram com ela. Uma coisa horrorosa e muito nojenta.




      SPOILER! - no texto e nas imagens.

      No dia do aniversário de Alejandra, os amiguinhos da escola decidem lhe fazer uma grande surpresa - e que surpresa. Era o final da última aula, e quando Alejandra tenta se levantar de sua carteira para ir embora, eles a obrigam a sentar e ficar ali, para presenciar praticamente o auge das humilhações já sofridas por ela até aquele momento. O que acontece é algo extremamente nojento e cruel, e essa foi uma das cenas em que eu tive que pausar o filme para conseguir digerir o que estava acontecendo.



      Os amigos de Alejandra levam um bolo pra ela. Isso mesmo, só que esse bolo é feito de fezes. Cocô. Ou qualquer outra palavra derivada que vocês prefiram. E eles obrigam Alejandra a comer praticamente o pedaço inteiro. E ainda dizem que não é para sobrar nada, visto que demoraram muito tempo no banheiro para que a obra ficasse pronta. Sério, eu ainda não consigo acreditar que na vida real coisas assim acontecem. Mas só não acreditamos porque, talvez, esse tipo de coisa não faça parte de nossa realidade. É uma tortura pela qual eu nunca imaginaria passar.


      FIM DO SPOILER!

      Enfim, essa é apenas UMA das inúmeras cenas cruéis que acontecem com Alejandra. O problema é que, atualmente, muitas crianças e adolescentes sofrem com as mesmas e outras situações, porém ocultam tais fatos por vários motivos: medo, depressão, negação, vergonha etc. No caso de Alejandra, por exemplo, o problema estava relacionado ao seu pai, pois ela tinha vergonha que ele soubesse que ela gravou um vídeo de sexo. Portanto, ela aceita as humilhações (mas não eternamente).

      A cena final é uma grande reviravolta na história. Foi algo sensacional e que eu adorei ter acontecido, apesar das tantas tragédias que ocorreram durante o filme.


      Lembrando, também, que os cortes de cenas, além da fotografia, são realmente muito bons e diferentes dos filmes convencionais (e essas são as características que sempre fazem com que eu goste mais de um filme do que do outro). É realmente um grande filme, forte, realista, perturbador. Nem vou me alongar no tema bullying, pois acredito que todo mundo sabe o quão horroroso é e quão presente está no mundo.

      É realmente um grande filme, forte, realista, perturbador. Nem vou me alongar no tema bullying, pois acredito que todo mundo sabe o quão horroroso isso pode ser e quão presente está no mundo. Gostaria que, quem pudesse, assistisse o quanto antes esse filme pra me contar o que achou. Só não dou cinco estrelas porque o filme me fez sentir mal algumas vezes.

      E a pergunta que fica é: quem, afinal, é Lucía? Ao que tudo indica, era a mãe de Alejandra, porém, se alguém tiver mais alguma opinião sobre isso, por favor, fiquem à vontade para informar.

Resenha por: Rebeca Reale

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domingo, 10 de março de 2013

O Bebê de Rosemary

      Antes de começar, já digo: eu podia passar a semana falando desse filme. 

ROSEMARY'S BABY (1968)



      Rosemary e Guy Woodhouse (Mia Farrow e John Cassavetes) formam um jovem casal em busca de um lugar pra morar. Visitam apartamentos e se decidem por um em Manhattan, o The Bramford. Desde logo são avisados que vários casos macabros já aconteceram naquele local, incluindo rituais satânicos. Mas, obviamente, eles não se importam, porque o que mais desejam no momento é ter um filho.



      Vale dizer que Guy trabalha como ator, mas, parafraseando o pessoal do Chaves, não é "aquilo que se diga 'meu deus, que ator'". Sua carreira tem altos e baixos, e digamos que está em baixa quando ele se muda com a esposa pro Bramford.

      Assim que se instalam no novo lar, Rosemary, indo à lavanderia, começa uma amizade com Terry Gionoffrio (Victoria Vetri), uma bonita moça que mora com o casal Castevet depois de ter sido adotada por eles. Ela usa um pingente com um cheiro estranho, presente da Sra. Castevet – parece desnecessário falar dele, mas ele tem uma importância considerável no filme.


      Pouco tempo depois, entretanto, voltando do teatro, Rosemary e Guy se deparam com um aglomerado de gente em frente ao prédio onde moram. Quando chegam mais perto, percebem que se trata de um suicídio, e da moça com quem Rose havia conversado. Os Castevet chegam ao local pouco tempo depois, e atestam que a moça morta era a mesma que vivia com eles, Terry.


      Esse é o primeiro contato do jovem casal com os Castevet – e quem dera ele não tivesse acontecido. Minnie e Roman Castevet (Ruth Gordon e Sidney Blackmer) são aqueles vizinhos chatos e intrometidos que todo mundo tem, e evita fazer contato visual pra eles não virem puxar papo. No dia seguinte à morte da garota, Minnie convida o jovem casal pra jantar, e os quatro ficam bem amigos.


      De repente – e é de repente mesmo – a carreira de Guy começa a dar certo, mas de um jeito meio mórbido: o ator que ganhou um papel ao qual ele concorreu ficou cego. Rosemary já parece bem enjoada de Minnie, que invade literalmente a casa dela o tempo todo. A velha dá a ela o mesmo pingente usado por Terry, e insiste pra que ela use pra dar sorte e tudo mais.

      Pouco tempo depois, Rose fica grávida. Nessa noite ela tem estranhas alucinações, que dão medo mesmo. O casal Castevet fica imensamente feliz por ela, e lhe indicam ‘um dos melhores obstetras do país’, Dr. Abraham Sapirstein (Ralph Bellamy). É perceptível que Rose já não aguenta mais aqueles dois, ainda que Guy faça questão de tê-los por perto o tempo todo.


      A gravidez de Rose é o ponto alto do filme, e dela decorre todo o resto da história. Por isso mesmo já paro de contar as coisas por aqui, devido ao alto risco de spoiler. Só deixo registrado que a gravidez dela é manifestamente incomum: ela emagrece, definha, cria olheiras imensas, que parecem ainda maiores depois que ela corta o cabelo.


      Dá pena ver o estado da Rose, viu. E dá vontade de bater palmas pra Mia Farrow, que nos faz sentir na pele cada uma de suas várias dores, bem como seu medo de perder o bebê e a antipatia que vai criando pelo intrometido casal Castevet

      É realmente irritante a forma invasiva com que Minnie e Roman se comportam. É como se a vida de Rose e Guy pertencesse a eles, por isso necessitam de vigilância constante. É uma sensação quase claustrofóbica – e talvez essa tenha sido a intenção de Roman Polanski. Afinal, a certa altura do filme Rose se vê vítima de uma conspiração – quando ela começa a ligar os pontos e pensar que o sucesso de Guy é decorrente de um pacto com o demônio, e que o casal xereta também faz parte disso.

      John Cassavetes também dá um show. Afinal, de marido perfeito e brincalhão passa a homem seco, grosso, e a tratar Rose como louca, e ficar cada vez mais longe dela e de casa pra ficar com os vizinhos. Ah, a sensação de aperto fica ainda mais evidente pelo fato de grande parte do filme se passar nos apartamentos – seja de Rose, seja dos Castevet

      Rosemary’s Baby, pra mim, é um dos melhores filmes de terror já criados. Polanski brinca com a mente do espectador todo o tempo, porque parece nos conectar à sua pobre protagonista. A pergunta que fica – e só é respondida no final do filme – é: estão mesmo conspirando contra Rose ou ela está maluca?

      Pra saber a resposta, só assistindo mesmo. E, apesar da duração considerável do filme (2 horas e 16 minutos não são pra qualquer um), a paciência vale a pena. Enfim, é uma obra de arte. Assistam, revejam, comentem e até a próxima =)

      Curiosidades (e esse filme tem um bocado delas):

- A esposa de Roman Polanski foi assassinada um ano após a estreia do filme por Charles Manson (aquele assassino famoso em que Marilyn Manson inspirou seu nome);

- John Lennon, assassinado em 1980, morou um tempo no edifício onde o filme foi rodado, em Manhattan;

- Mia Farrow ganhou um Globo de Ouro por sua atuação em Rosemary’s Baby;

- Ruth Gordon ganhou um Oscar como melhor atriz coadjuvante por seu papel neste filme;

- Rosemary’s Baby teve uma continuação em 1976, intitulada “Look what’s Happened with Rosemary’s Baby”. Eu nunca vi, mas as críticas são péssimas (veja aqui, no Filmow). Então, rola entre os cinéfilos que um filme que pode ser uma continuação plausível pra ele é The Omen (“A Profecia”), também de 1976.


Resenha por: Stephanie Eschiapati

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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Suave é a Noite

      Claro que todas as resenhas que eu faço são pra vocês, leitores do blog. Mas essa é especial <3

TENDER IS THE NIGHT (1962) 



      O filme começa com um casal e dois rapazes na praia na Riviera Francesa, planejando uma festa em comemoração ao 04 de julho. Tratam-se de Nicole (Jennifer Jones), casada com o médico Dick (Jason Robards); Abe North (Tom Ewell) e Tommy (Cesare Danova). Para a festa, eles convidam dois casais que também estavam na praia, e uma bonita atriz, Rosemary Hoyt (Jill St. John).

(Da esquerda para a direita: Abe, Tommy, Dick e Nicole)

(Rosemary Hoyt)      

      Na festa, tudo corria bem, até que Nicole tem um acesso de ciúme ao ver Dick indo ao jardim com Rosemary (que se insinua bastante para o anfitrião – até irrita, sério). No dia seguinte, o médico, em seu escritório, começa a se lembrar do passado, e, consequentemente, de como conheceu sua esposa e amor de sua vida.


      Nicole tinha sérios problemas psicológicos por causa de seu pai. Em decorrência deles, sua irmã, Baby Warren (Joan Fontaine), torna-se sua tutora legal e a interna em várias clínicas psiquiátricas. Mas a única em que houve significativos progressos foi a do Dr. Dohmler (Paul Lukas), em Zurique, na Suíça, na qual Dick era responsável direto pelo tratamento.


      Era perceptível que havia um romance entre médico e paciente, por mais que o doutor quisesse evitar a situação. É emblemática, então, a conversa entre Dick e o Dr. Dohmler, em que o primeiro confessa estar apaixonado por Nicole. O experiente psiquiatra apresenta sua teoria: por mais que houvesse amor entre o casal, sua história era fadada ao fracasso, pois Nicole via Dick não apenas como um homem, mas como um deus ou qualquer outro ente divino. Um dia, porém, ela perceberia que seu marido não era tudo isso, e se decepcionaria, provavelmente, a ponto de se separar.


      Dick dá alta à Nicole, e não lhe dá esperanças de um romance. Tempos depois, eles se encontram casualmente, ela o convida para um jantar e o amor floresce; a cena seguinte é o casamento deles. Bom ressaltar que Dick deixa bem claro seu desinteresse pela fortuna da esposa.  Eles vivem tranquilos por um tempo, e ele, inclusive, deixa sua carreira de lado na Suíça para continuar na Riviera Francesa.

      O flashback acaba bem após uma festa de ano novo, em que Nicole se nega veementemente a voltar para a Suíça. Ela acorda (trata-se do dia seguinte à festa comemorativa da Independência americana, aquela do início do filme) e diz que quer atravessar a baía de barco, mas Dick se nega, e convence a mulher de que precisa voltar a trabalhar, precisa “salvar os dois”. Eles vão, então, para Zurique.



      A ideia do médico é se unir a um antigo amigo, Dr. Franz (Sanford Meisner) para assumir a clínica do Dr. Dohmler, já velho e doente. Eles começam o negócio, mas as coisas não funcionam muito pra Dick. A partir daí, segue-se uma série de acontecimentos que vão colocando em risco não só a carreira do psiquiatra, mas também seu casamento, visto que, desde o fim do tratamento de Nicole, ele abandonou a carreira e passou a se tornar extremamente dependente da esposa, tanto emocional quanto financeiramente.

      Deixo aqui pra vocês, então, a curiosidade em saber se a teoria do Dr. Dohmler se concretizou ou não. E o que mais aconteceu ao casal.

      Tender is the Night é uma grande história de amor, embebida por uma sensacional trilha sonora (cujo carro-chefe, digamos, é uma música de mesmo nome, composta por Sammy Fain e Paul Francis Webster). Trata não só da relação entre o casal protagonista, mas de questões relacionadas à personalidade de cada um dos envolvidos na história. Todos têm uma característica específica; Dick e Nicole, inclusive, apresentam uma evolução – ou involução? – incrível no decorrer da trama. 

      Sei que pode parecer absurdo, mas fiz uma comparação entre esse filme e Casablanca. Ainda que 20 anos separem uma obra da outra (o primeiro é de 1962 e o segundo, de 1942), há uma série de aspectos que se aproximam, desde a belíssima trilha sonora até a abordagem de um romance, que não se sabe se pode ou não dar certo.

      Rick e Dick assemelham-se, pelo menos pra mim, não apenas no nome. São homens fortes, mas com um ponto fraco: o amor. Nenhum dos dois é decididamente um bom moço; assim como Nicole e Ilsa também podem não ser as mocinhas perfeitas. Sei que tudo isso pode parecer um impropério para os cinéfilos, mas comparei, e pronto.

      São dois filmes decididamente maravilhosos, obras de arte, sem dúvida. Tender is the Night foi uma recomendação muito especial, e deveria ser mais reconhecido (apenas 20 pessoas o viram e marcaram no Filmow, por exemplo). Enfim, ainda que tenha dado um bocado de trabalho para encontrar, valeu o esforço. Super recomendo, até a próxima.


      Link para download: o filme completo pode ser encontrado no Youtube, mas sem legenda.

Resenha por: Stephanie Eschiapati

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O Substituto (Desapego)

E nunca me senti tão profundo e ao mesmo tempo tão alheio de mim 
e tão presente no mundo” – Albert Camus.

DETACHMENT (2011)



      Detachment significa indiferença, distanciamento, desinteresse. O filme, no cinema nacional, já teve o nome de “Desapego”, o que faz jus a trama. Porém, como o brasileiro sempre gosta de piorar o que já está bom, traduziu Detachment de forma ordinária para: O SUBSTITO. Mas OK, a gente supera. Já aconteceram tantas traduções chulas nesse Brasil, que a gente acaba se acostumando, como tudo na vida.

      Enfim, here we go: dirigido por Tony Kaye (A Outra História Americana), o filme relata a história de Henry Barthes (Adrien Brody), um professor substituto que vai rumo ao seu novo emprego. A escola em que vai lecionar comporta os mais variados tipos de alunos, mas, em sua maioria esmagadora, aqueles que não dão a mínima ao professor, ao ensino e à escola. Resumindo: é um lugar que reúne os mais preconceituosos e violentos tipos. Sua relação vai ter como patamar quatro importantes bases: uma prostituta menor de idade, chamada Erica (Sami Gayle), uma professora da escola (Christina Hendricks), seu avô doente (Louis Zorich) e uma aluna, Meredith (Betty Kaye), que possui uma doença chamada obesidade.



      No decorrer do filme, flashbacks em paleta vermelha revelam momentos de sua infância, mais ou menos quando Henry tinha 7 anos. São momentos que, apesar de confusos no início, nos permitem perceber os motivos que levaram Henry a se tornar uma pessoa tão triste e alheia ao mundo ao seu redor. Cenas que envolvem imagens de sua mãe, mais as alucinações que seu avô tem, quando chama pelo seu nome e conversa com ela, sempre pedindo desculpas, apesar de ela já estar morta, nos trazem indícios de que alguma coisa ruim aconteceu na história dos dois. Mas Henry, com a pouca idade que tinha, nunca pôde compreender do que se tratava, por isso tem apenas lembranças vagas e insuficientes dos acontecimentos que ocorreram em sua infância.



      Não vou me atrever a julgar essa parte da relação com seu avô e sua infância como menos importante para a película. Acho que todos os momentos do filme possuem um certo peso essencial, que não podem ser excluídos. Logo, em decorrência, não vou dizer que o tema principal do filme é a educação norte-americana defasada. Dependendo do ponto de vista de cada um, pode ser que essa seja a parte principal, mas também pode ser que não a seja, devido a tantas outras partes importantes (como a crise existencialista, que é super abordada nesse filme).


      A próxima relação que vou discriminar, uma das mais bonitas e emocionantes do filme, é com a prostituta menor de idade, chamada Erica. Apesar de ser um tanto quanto niilista e alheio ao mundo, ele decide acomodá-la em sua casa, primeiro, por se tratar de uma criança, segundo, por ele ver o quão prejudicada pela vida ela foi, tanto no sentido físico quanto no mental. A relação que ele desenvolve com ela me lembrou muito a do Léon e Mathilda, no filme Léon (O Profissional, 1994). Quem já viu esse filme entende a beleza que o contato entre uma criança e um adulto desconhecidos pode estabelecer. Apesar de se dar bem com a pequena, seu perfil de desapego não desaparece, e ele sempre toma decisões que nem sempre refletem seus verdadeiros desejos.




      Uma das personagens mais marcantes desse filme é Meredith, garota obesa que é humilhada por várias pessoas, inclusive por seus pais (no filme, mostra especificamente as humilhações de seu pai). A questão da vida versus a morte, a questão do carpe diem e do suicídio, também são retratadas nesse filme, principalmente personificadas nessa garota. Se a escola comporta os piores tipos de aluno, imaginem a intensidade do bullying que ela sofre. Ela é um dos poucos alunos que realmente se dedicam à educação, e busca no professor Henry um suporte para seus problemas. Existem vários momentos do filme que mostram a relação de Henry com Meredith, e são tão fodas (com o perdão da palavra), e com acontecimentos tão chocantes, que isso se torna mais um forte do filme; dá aquela vontade de voltar o filme alguns minutos só pra apreciar novamente a intensidade das cenas.



      E, por fim, existe a relação dele com a Senhorita Madison (Christina Hendricks), que, apesar de ser efêmera, também é importante. Na essência, essa professora é um tanto quanto igual ao Henry – ela, por exemplo, afirma que possui medo de voltar sexta-feira de noite pra casa, pois não sabe como vai lidar com a vida que tem fora da escola. O apego que ela criou dentro do estabelecimento educacional transformou-a numa pessoa que não sabe lidar com o mundo afora.


      A crise existencial, posso afirmar, é o tema mais abordado nesse filme. Todos os personagens possuem problemas familiares, o que pode ser um dos principais fatores que os tornaram como são. Todos carregam uma máscara de suposto equilíbrio, satisfação, constância; mas, quando largam o expediente e voltam para suas casas, a situação se inverte, e o que antes foi disfarçado, explode em situações de tristeza e raiva. Resumindo, é como diz a música: vou negando as aparências, disfarçando as evidências. Uma das cenas mostra quando o véu cai e o sentimento de ódio, raiva, cansaço e insatisfação estoura sem controle – quando a psicopedagoga, Doutora Parker (Lucy Liu), joga na cara de uma aluna palavras fortes e realistas, sobre como é a falta de ambição que os alunos têm e que restará a ela (a aluna), se conseguir, apenas a sobrevivência à base de um salário mínimo.



      O papel do filme não é ser moralista, mas sim realista. O comodismo que existe atualmente é um dos principais alvos criticados. Muitas das pessoas que viram o filme disseram sentir-se deprimidas quando lembravam das cenas. Do jeito que o filme é montado, principalmente com o corte das cenas e com a trilha sonora ao fundo, realmente traz um sentimento estranho e angustiante. A filmagem é diferente da tradicional; é aquilo que muitos chamam de filme “alternativo”. Mas isso não impede que seja um filme maravilhoso; aliás, isso faz com o filme pareça mais intenso a cada minuto que passa. Você começa a assistir e a vontade de pausar, nem que seja pra ir ao banheiro, não existe mais. O filme simplesmente flui.

      Até que ponto a vida vale a pena? Não seria mais fácil se desapegar de tudo e todos, no sentido de não deixar o sentimento interferir nas relações? A morte não é o lado mais calmo? Se uma vida é cheia de tristeza e sofrimento, deveriam as pessoas escolher o outro lado, por ser mais fácil? De onde surgem tantos problemas, se apenas o que fazemos é nos esforçar pra fazer do mundo um lugar melhor? Até quando conseguiremos suportar a imensa pressão da sociedade sobre nossos ombros? Deduzi que essas são as principais questões abordadas no filme, e, resumindo em apenas uma pergunta: devemos continuar vivos?


      E, pra finalizar: mesmo que o filme fosse ruim, valeria a pena assisti-lo apenas pelo Adrien Brody (O Pianista). Gente, que ator é esse, hein?! Suas interpretações são tão magníficas que beiram ao real. Então, se alguém tem dúvida em assistir ou não a esse filme, veja apenas pelo Adrien, porque esse cara é brilhante.


Resenha por: Rebeca Reale

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